Publicado em Cultura, Escritores, Literatura, Principal

Brasil Mitológico

Para além de Monteiro Lobato: Uma leitura de Raízes de Vento e Sangue de Lauro Kociuba

Não sou muito ligada a livros de fantasia fantástica brasileiros. Muito, porque fui condicionada a interagir mais com as mitologias estrangeiras (quem não foi?). São milhares de vertentes que descrevem épocas, costumes e, por que não, interações sociais de povos muito muito distantes daqui como, por exemplo, os escandinavos, chineses, mongóis, japoneses, germânicos e por aí vai. Em que estante habita a identidade cultural brasileira?

Quando Lauro Kociuba começou a comentar em sua página de facebook que iria adentrar o universo mítico nacional, pensei que seria um trabalho muito difícil, já que lendas e mitos brasileiros são muito pouco divulgados ou estudados para o formato literário. Sim, fora Monteiro Lobato e os diálogos antropofágicos de Oswald e depois a Macunaíma de Mário de Andrade, não me recordo em minha juventude de ter alcançado autores que conversassem com esse tipo de tema, explorando uma cultura genuinamente tupiniquim, ou ainda sendo o ponto de partida para se pensar uma identidade cultural nacional. Talvez por isso, o interesse não tenha sido despertado.

Aguardei o livro sair pela Amazon para iniciar minha aventura particular. Kociuba é um autor contemporâneo, geração internet de várzea, internet raiz, que trabalha no sistema de leitores betas, onde, na medida que a história evolui, recebe feedbacks e, com isso, tem um produto final mais organizado, pensado na experiência de leitura.

Todas as obras do autor foram fomentadas sem o recurso editorial de uma grande empresa da área, o que proporciona maior liberdade criativa, mas também um cuidado maior sobre o segmento, já que seus financiadores, cadastrados em plataforma de financiamento coletivos, podem ser qualquer pessoa (o que é bom, mas também é ruim, um papo para outro texto).

Sua primeira obra, lançada a partir de um Catarse ao longo de 2014/2015, segue a linha da fantasia fantástica sediada na cidade de Curitiba, onde seres mitológicos estrangeiros conversam com personagens contemporaneos. A Liga dos Artesãos foi também o primeiro experimento do autor no módulo da Amazon para publicações diretas, o Kindle Direct Publishing, onde o autor pode monetizar sua obra diretamente pela plataforma, sem o intermédio de editoras.

Ainda pelo módulo KDP, Kociuba publicou alguns contos ligados ao universo Alvor: Irmãos, o excelente Promessas Antigas e Estações de Caça. Senti em Promessas uma evolução de escrita, pois havia um desafio proposto entre autores: um crossover entre dois universos de literatura fantástica brasileiros criados por dois autores diferentes, os Alvores de Kociuba e a Galeria Creta de Janayna Pin. Ter essa experiência me deixou empolgada para abraçar Raízes de Vento e Sangue. Mas vamos parar de lenga e começar logo a minha experiência nos mitos revisitados por Kociuba. Segura essa lenda!

Art Concept de Ezekiel Moura, especialmente para o projeto Raízes de Vento e Sangue. 
Iara, Saci, Caipora e Pisadeira. 

Sangue, Fogo e Sete mitos

Gostar é um conceito muito subjetivo quando o relacionamos ao nosso consumo, neste caso, o de literatura. O que torna uma história boa, é o fato de oferecermos nossa verdade à ela, um jogo de reconstrução onde cada agente, escritor e leitor, concedem um pedaço de si para a construção e interpretação de uma história. O autor é nada mais que um guia que aplica seu prisma pessoal na construção de um determinado universo e concepção das personagem. O leitor é quem dá vida a este processo, aplicando sua relação com o mundo na narrativa consumida. O resultado pode ser descrito rasamente com os termos gostar/não gostar, mas o que interfere nesta lógica é a dinâmica que o autor oferece à escrita para proporcionar uma imersão do leitor, engajando-o em uma experiência única.

A cada linha Kociuba insere um pouco da sua verdade na esperança, de que quem for o ler, tenha uma experiência aproximada do que ele almeja. Só que o leitor tem papel fundamental nesta soma. Sem suas vivências e assimilação, não há experiência suficiente para provocar uma imersão a ponto do leitor oferecer a sua verdade à obra. Quem está disposto à jogar?

Raízes de Vento e Sangue: 7 Visitas aos Mitos Brasileiros tem um pouco disso. São sete histórias distintas, mas que tem em comum o apelo ao ser mítico relacionado a identidade cultural brasileira. Em um jogo de concessões, somos convidados a nos despirmos de conceitos arraigados por outras grandes obras do gênero e adentrar em uma nova linha de raciocínio do que é a lenda. No final de cada conto algumas perguntas saltam a mente e nos fazem refletir sobre o que é lenda e o que é ficção: Será que é real? Partiu de onde? Será que a personagem pode mesmo habitar os nossos dias?

20861539_1366130816775583_4782643962318334239_oCom genialidade, Kociuba consegue propor uma identidade nova para cada lenda. Seja Caipora, Iara, Pisadeira, Saci, Mula, Boto e Bumba meu Boi, os contos são inseridos em cenários atemporais que permitem a interpretação da assimilação com a atualidade ou com à época de nossos primeiros colonizadores.

Iara é uma guerreira, a melhor de sua tribo, cuja principal arma é o empoderamento da personagem e a capacidade de escolha.  Em o Boto, impossível não o relacionar ao signo do malandro, uma analogia à figura emblemática carioca, mesmo ambientado em região amazônica. Pisadeira é o terror que nos habita e consome energia provocando a paralisia do sono e um não despertar de nossa vida zumbi. E o boi, ah, o boi é uma história contada em festa e farra, mas que ganha um novo cenário, a relação entre escravo e o senhor de engenho. O livre arbítrio pode ser justo, mas também cruel.

O que posso dizer, no final das contas, é que gostei de Raízes, muito mais do que imaginava que iria. Gostei da abordagem e de como Kociuba consegue trazer para a atualidade temas que não tem uma data de origem. A experiência me permitiu interagir com cada mito de uma forma singular e única, sem infantilizá-los ou marginalizar a sua concepção. São 96 páginas de cinco estrelas, pode confiar. A ilustração da capa é de Caique Guerra e o texto de abertura de Andreolli Costa.

Autor:

Cerratense perdida na neblina curitibana, jornalista por falta de direcionamento de carreira e fotógrafa sem câmera.

Um comentário em “Brasil Mitológico

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s