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Sunday Bloody Sunday – História e Memória

 

Tenho certeza que a maioria de vocês conhece a banda U2, ou pelo menos escutou alguma de suas músicas (mesmo sem saber, talvez, de quem era), ou já ouviu falar do grupo. Uma banda de tanto sucesso, ativa há tantos anos, é difícil passar despercebida.

U2 é minha banda favorita e, sendo assim, é difícil para mim escolher a música que mais gosto. São tantas histórias, tantos momentos da minha vida nos quais me identifiquei com alguma letra, tantas mensagens fortes transmitidas pelas músicas, que realmente é difícil destacar só uma. Mas em tempos de tanta intolerância no mundo, vale a pena falarmos de Sunday Bloody SundayContinuar lendo “Sunday Bloody Sunday – História e Memória”

Publicado em Desafio Literário, Literatura, Literatura Estrangeira

Sangue Negro

É difícil explicar minha relação com a poesia. Sempre a apreciei, mas também sempre me senti um pouco insensível em relação a ela. Talvez, em alguns casos, eu não tenha entendido bem esse modo de expressão literária. Em outros casos, acredito que possa ter sido falta de identificação ou afinidade com o tema. Faz pouco tempo que tenho dado mais atenção à poesia e lido alguns escritores que têm me proporcionado uma experiência diferente com esse estilo, muito mais próxima e até agradável. Noémia de Sousa certamente é uma dessas pessoas.

Mas como não ser levada por essa força presente nos poemas da escritora? Ler Sangue Negro foi uma experiência que me causou ao mesmo tempo alegria e tristeza, ânimo e revolta, dor e coragem. São sentimentos que se tornam ainda mais interessantes se pensarmos no lugar de fala de Noémia de Sousa, no contexto em que ela estava inserida. Suas poesias não foram feitas especificamente para um livro. Apenas muitos anos depois elas seriam reunidas para esse fim. A escritora publicava seus poemas em jornais, entre 1948 e 1951. Esses escritos dialogavam com todo um movimento de reivindicação da Negritude e contra a colonização portuguesa. São poemas que circulavam de mão em mão e alcançavam do cidadão comum que lia seu jornal ao revolucionário que precisava de ânimo para seguir na luta. Vejam, por exemplo, essa poesia:

Poema

Bates-me e ameaças-me,

agora que levantei minha cabeça esclarecida

e gritei: “Basta!”

Armas-me grades e queres crucificar-me

agora que rasguei a venda cor de rosa

e gritei: “Basta!”

Condenas-me à escuridão eterna

agora que minha alma de África se iluminou

e descobriu o ludíbrio…

E gritei, mil vezes gritei: “Basta!”

Ó carrasco de olhos tortos,

de dentes afiados de antropófago

e brutas mãos de orango:

Vem com o teu cassetete e tuas ameaças,

fecha-me em tuas grades e crucifixa-me,

traz teus instrumentos de tortura e amputa-me os membros, um a um…

Esvazia-me os olhos e condena-me à escuridão eterna…

– que eu, mais do que nunca,

dos limos da alma,

me erguerei lúcida, bramindo contra tudo:

Basta! Basta! Basta!

(Noémia de Sousa – Livro: Sangue Negro (p. 122)

Noémia de Sousa, considerada a mãe dos poetas moçambicanos, era também uma incansável militante em defesa da liberdade de Moçambique e de sua grande Mãe África. Também não se esqueceu da resistência das mulheres negras em seus poemas. Inserida nesse contexto, a escritora viu vários de seus colegas e amigos sendo mortos, presos ou exilados. Ela mesma se exilou, primeiro na França, depois em Portugal, onde viria a falecer longe de sua terra natal. O livro Sangue Negro não é apenas a compilação de sua obra, é uma merecida homenagem a essa grandiosa mulher.

A primeira edição foi publicada em 2001 pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Noémia de Sousa relutou um pouco para que seus poemas se transformassem em um livro, apesar de toda a insistência de seus amigos e companheiros de Literatura para essa publicação. Por esse motivo demorou tanto tempo para que esses poemas estivessem disponíveis nesse formato. A segunda edição do livro é do ano 2011, lançada pela editora Marimbique. Infelizmente foram necessários mais alguns anos para essa obra chegar ao Brasil. Em 2016, a editora Kapulana publicou o livro em nosso país, o que permitiu aos leitores brasileiros terem acesso mais facilmente aos poemas de Noémia de Sousa. Aliás, com essa edição muitos leitores, como eu, tiveram a chance de conhecer a escritora, o que foi um presente, mas também mostra a nossa defasagem em ler e buscar mais escritoras negras, africanas, de países com certa proximidade com o nosso, como é Moçambique. Noémia de Sousa tinha um grande carinho pelo Brasil e possuía vários amigos brasileiros, com os quais mantinha uma troca de ideias e colaborações.

O livro publicado pela editora Kapulana é uma verdadeira preciosidade. Além dos poemas, o livro traz incríveis ilustrações feitas por Mariana Fujisawa e um prefácio superinteressante (especialmente se você ainda não conhece nada sobre Noémia de Sousa) escrito pela professora e pesquisadora Carmen Lucia Tindó Secco. Ainda mais, o livro traz textos que fizeram parte das edições anteriores (de 2001 e 2011) e várias mensagens em homenagem à autora, enviadas por outros escritores, pesquisadores e amigos de Noémia. Ou seja, mais que apreciar a maravilhosa obra da escritora, podemos conhecer também a importância e a abrangência de sua poesia.

Enfim, Sangue Negro foi mais uma incrível experiência de leitura que esse desafio me proporcionou. E conhecer Noémia de Sousa, me emocionar com sua poesia, me encorajar em sua força, foi um grande presente. Espero que vocês também se animem a conhecê-la. Depois voltem aqui para me contar o que acharam.

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A edição que li, da editora Kapulana é essa AQUI.

Para ver a lista do meu desafio literário desse ano, com os livros já lidos e os que ainda faltam, clique AQUI.

 

Publicado em Desafio Literário, Literatura

Desafio Literário 2017: julho – Noémia de Sousa

Com um pouco de atraso, aqui estou para falar sobre a leitura de julho do meu Desafio Literário: 12 livros escritos por mulheres para 2017. As leituras estão em dia, o que faltou foi tempo para vir escrever. Mas antes tarde que nunca, certo? O livro escolhido para julho foi Sangue Negro, da Noémia de Sousa. Que livro maravilhoso! Mas, como sempre, antes de falar sobre ele, quero falar sobre a escolha dessa escritora para minha lista.

Se eu disser para vocês que conhecia Noémia de Sousa antes desse ano é mentira. Me lembro de ter escutado um poema dela recitado pelo escritor Marcelino Freire, há poucos anos, em algum evento literário em São Paulo, mas na época não me dei conta de quem havia escrito e não fui atrás para saber. Infelizmente. Se eu tivesse feito isso, já havia tirado um atraso literário da minha vida: o de ler mais obras escritas por mulheres negras. É um atraso que todos nós temos, na verdade. Se na escola e na universidade não somos incentivados a ler livros escritos por mulheres, quem dirá por mulheres negras! Mas chegou a hora de sair do atraso. Ao fazer minha lista de leituras no final do ano passado, pedi indicações para minha irmã, que me deu vários nomes, inclusive, o da Noémia de Sousa. Busquei informações sobre ela e nem precisei me aprofundar em sua biografia para decidir incluí-la.

Noémia de Sousa é uma escritora moçambicana. Mas não é só mais uma, ela é considerada a mãe dos poetas moçambicanos. Seu único livro publicado é Sangue Negro, uma compilação de 46 poemas escrito por ela entre 1948 e 1951. Na época, esses poemas eram escritos para serem publicados em alguns jornais e também circulavam cópias entre as pessoas. Apenas em 2001 todos os poemas foram reunidos em um livro. Noémia de Sousa aborda, em sua obra poética, temas como a situação da mulher africana e moçambicana, a identidade negra, a luta do povo moçambicano pela liberdade e a resistência contra a colonização. Noémia foi uma militante engajada e, por isso, em certo momento precisou exilar-se na França e, depois, em Portugal. Faleceu em 2002, longe de sua terra natal, em Cascais (Portugal).

Preciso confessar: poesia nunca foi meu gênero literário predileto. Não apenas isso, em alguns casos eu simplesmente não entendia a complexidade de comprimir pensamentos tão profundos em poucos versos. Mas, pensando bem, talvez tenha faltado uma boa dose de identificação com o assunto. Ler os poemas de Noémia de Sousa foi uma experiência completamente diferente. Eu entendi, gostei, me identifiquei, senti a força de sua escrita. Mas sobre essa experiência e sobre o livro em si, vou falar no próximo post, então não deixem de aparecer por aqui para ler.

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Escuta só! – Bomba Estereo

Oi, pessoas!

Hoje voltei para trazer mais uma sugestão de música colombiana para vocês. Sempre gostei de música em espanhol, mas não tinha muito conhecimento da música colombiana, especificamente (não gosto de usar o termo “música latina”, porque música brasileira também é latina, afinal de contas). Desde que vim morar na Colômbia tenho conhecido muitos artistas e bandas locais e é incrível ver toda a riqueza musical desse país. Um grupo que tem feito muito sucesso não só na Colômbia, mas internacional, é o Bomba Estereo. Continuar lendo “Escuta só! – Bomba Estereo”

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4 dicas para ler mais

Uma das perguntas que escuto muito na vida é: “como você consegue ler tanto?”, ou: “como consegue tempo para ler?”, seguida pela frase: “ah, eu queria ter tempo assim também”. Minha resposta curta (e talvez um pouco grossa) é: eu não tenho tempo, eu crio meu tempo. Como tudo na vida. Se fizermos qualquer coisa só quando temos “tempo de sobra”, nunca vamos fazer nada. Mas outra resposta possível poderia ser: eu consigo tempo para ler porque eu gosto muito de ler! Quando a gente gosta muito de algo, certamente dedicamos tempo a isso.

Eu sempre li bastante, desde bem pequena. Sempre fui incentivada a isso, então a leitura tornou-se um hábito na minha vida. Na época da adolescência, quando eu ainda não tinha muitas responsabilidades, ler era praticamente tudo o que eu fazia o dia inteiro. Ia à biblioteca, pegava dois, três, quatro livros e os devorava durante o mês. Foi na vida adulta, cheia de compromissos, em que diminui um pouco o ritmo, mas ainda assim, sempre mantive o hábito. Porém, nessa fase precisei adotar estratégias para não permitir que as tarefas diárias tirassem de mim o prazer da leitura. Resolvi compartilhar aqui meus “truques” para “conseguir ler tanto”, como costumam me dizer (e eu nem leio tanto quanto poderia ou gostaria, na verdade). Se você gosta de ler, mas acha que não tem muito tempo, talvez essas dicas te ajudem. Ou se você não gosta muito de ler, mas quer criar o hábito da leitura, pode começar por esses pontos que vou falar a seguir: Continuar lendo “4 dicas para ler mais”

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Hora Zero – Agatha Christie

Antes de tudo, quero avisar que será impossível falar sobre esse livro sem dar spoiler. Então resolvi dividir esse texto em duas partes. Na primeira, vou apresentar o livro e falar de uma maneira mais superficial, para quem tem interesse em saber sobre o que se trata, mas não quer saber o final. Na segunda parte vou falar sobre o que, para mim, é o ponto principal do livro, com um olhar um pouco mais atencioso para a obra, mas não posso fazer isso sem dar informações importantes sobre a história. Então, se você odeia spoilers com todas as suas forças, leia só a primeira parte (eu avisarei quando você deve parar de ler). Mas se você não se importa com isso, leia até o final.

A Hora Zero

– Gosto de um bom romance policial – disse ele. – Mas, como se sabe, eles sempre começam do ponto errado! Começam pelo assassinato. Só que o assassinato é o final. A história começa muito antes – com todas as causas e circunstâncias que levam as pessoas a certos lugares, num certo momento e num certo dia. […] – Todos se dirigem a um determinado local… E aí, quando chega a hora: o ponto máximo! A hora zero. Sim, todos convergem para a hora zero… Para a hora zero… – repetiu. (p.11-12)

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