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Por Que Apenas Ofertar Educação Não é o Suficiente?

Na primeira metade do século XX países europeus e os EUA já haviam universalizado a educação básica. Praticamente todas as crianças e adolescentes na idade da escolarização básica já estavam na escola. Essa conquista gerou grandes expectativas, dentre essas a de que haveria um grande movimento de mobilidade social. Na segunda metade do século XX constatou-se que a oferta de vagas em educação não seria suficiente para promover mobilidade social. Descobriu-se mecanismos que evidenciam que as condições sociais dos estudantes são variáveis muito fortes na trajetória social.

Nos EUA, destaca-se o Relatório Coleman. Em 1966 James Coleman e sua equipe publicam um extenso relatório sobre a equidade das oportunidades educacionais. Com aportes estatísticos eles mostraram a importância das condições socioeconômicas dos alunos e de suas famílias tanto para o desempenho quanto para a longevidade escolar. Na Europa, Pierre Bourdieu se destaca pela publicação de dois livros chamados Os Herdeiros (1964) e A Reprodução (1970). Bourdieu pesquisou sobre a trajetória dos estudantes franceses, sobretudo nas etapas secundária e terciária, e, por meio de dados e análises estatísticas ele mostrou que as condições sociais, econômicas e culturais das famílias dos estudantes era o fator fundamental para a entrada e conclusão do ensino superior.

Essa pesquisa e a perspectiva teórica de Bourdieu inaugurou o chamado paradigma da reprodução. Segundo esse autor, a escola tende a reproduzir as desigualdades sociais presentes na sociedade e anteriores a escola. Ao chegar na escola, os alunos de diferentes contextos sociais, econômicos e culturais apresentam capacidades, habilidades e conhecimentos diferentes. Estudantes de famílias com pais de alto capital econômico, social e cultural tendem a aprender coisas já no seio da família e a desenvolver habilidades (como capacidade de concentração, disciplina etc.) que serão valorizadas pela escola. Dessa forma, esse estudante chega com vantagem em relação ao estudante de famílias de baixo ou parcos capitais econômicos, culturais e sociais.

Além disso, estudantes com boas condições sociais tendem a vivenciar experiências múltiplas (como viagens, idiomas, cursos, esportes etc.) e contam com uma rede de relações sociais mais forte, herdadas de seus pais. Na escola, ou entre as escolas, os estudantes partem de condições diferentes. Alguns já ‘largam dezenas de metros na frente’ da competição escolar, que no futuro, se tornará em competição pelos melhores empregos e condições de trabalho.

A escola, por ser uma instituição social oficial, que prepara para a cidadania e para o mundo do trabalho, tende a reproduzir o que Bourdieu chama de ‘cultura legítima’. Na escola, aprende-se a norma culta da língua, aprende-se ciência, aprende-se o conhecimento sedimentado e referenciado. Ou seja, em princípio, a escola não é lugar para o senso comum, para opiniões ou para conhecimentos não legitimados. Bourdieu chama atenção para o fato de que são justamente as famílias de maiores capitais culturais, econômicos e sociais as que possuem mais proximidade com o conhecimento padrão, considerado legítimo e que rege as relações públicas, sociais e do mercado de trabalho.

Dessa forma, o conteúdo escolar tende a harmonizar-se com os conteúdos das famílias de melhores condições e tende a confrontar-se com o conhecimento popular das famílias de baixos capitais.

Essas constatações ainda hoje são verificadas em estudos ao redor do mundo. Apesar de mais de meio século desde essas descobertas de Bourdieu, os mecanismos de reprodução social ainda existem, sobretudo em países de alta desigualdades como o Brasil, por exemplo.

Muitos pesquisadores e cientistas se debruçaram e se dedicam a essas questões. A redução das desigualdades escolares e sociais tornou-se uma agenda em vários países. Atualmente, sabe-se que apenas ofertar vagas escolares para todos não é suficiente para integrar os estudantes e suas famílias nos circuitos da ciência, educação e trabalho. Sabe-se também, que é importante ensinar os conhecimentos padrões e científicos, sem negar ou menosprezar o conhecimento social popular, diminuindo o fosso entre cultura legítima e cultura corrente.

Além disso, as políticas de redução das desigualdades escolares devem ser antecipadas por políticas de redução das desigualdades de renda e culturais. Famílias muito pobres não tem condições de minimamente garantir as condições de estudos para os filhos. A pressão para que trabalhem, o trabalho infantil e/ou precoce são situações comuns nessas condições. A escola não tem a capacidade de resolver questões sociais amplas e acabam enfrentando um desafio ainda maior na missão de educar.

Por fim, a melhoria do ambiente escolar, o investimento em educação pública de qualidade entre outros fatores contextuais podem gerar influência e efeitos positivos sobre a trajetória de crianças e adolescentes, abrindo oportunidades e rompendo com esse ciclo de reprodução das desigualdades.

 

Referências/Para saber mais:

BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. 

BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. Os herdeiros: os estudantes e a cultura. 2. ed. Florianópolis: UFSC, 2018.

COLEMAN, James (ed.). Equality of educational opportunity. Washington: U.S. Government Printing Office, 1966.

Colaborador Beco das Palavras
Os textos publicados aqui são produzidos pelo colaborador que assina cada artigo, sob supervisão e revisão de Luciana Assunção.

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