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O que é Capitalismo

Entenda o que realmente é capitalismo, como foi criado, seus prós e contras

 

O capitalismo é um sistema socioeconômico que tem ao menos quatro fundamentos: divisão social do trabalho, propriedade privada, trocas de mercadorias e valores, e, liberdades econômicas. Tornou-se o sistema mais intenso e com maior capacidade de geração de riqueza que se tem conhecimento ao longo da história humana, é também um sistema concentrador e produtor de desigualdades sociais e que tensiona a capacidade de sustentabilidade ambiental.

 

Capitalismo e a sociologia

 

Um dos fundadores da sociologia, Émile Durkheim, iniciou sua produção sociológica com uma constatação bastante importante sobre a modernidade: a divisão do trabalho. Ao contrário de outras formas sociais como as das tribos, agrupamentos e pequenas cidades do passado, a sociedade na modernidade é marcada por uma forte divisão social do trabalho. Essa divisão da sociedade por ofícios é a base da diferenciação social presente na modernidade. Se em outras sociedades a relação era mais direta e mecânica, onde as pessoas possuíam características mais comuns, na modernidade passa-se para uma organização mais complexa e orgânica da vida social. Essa divisão está conectada com o individualismo, com a forma como as pessoas constroem suas identidades e na forma como elas se relacionam.

Sociologicamente, o capitalismo não existira sem a modernidade. É justamente esse processo de diferenciação que dar as bases para a formação de identidades profissionais, que dar centralidade para a vida econômica e que estabelece a importância de instrumentos de trocas facilitadas e artificializadas, como o dinheiro/moeda.

O capitalismo fica estabelecido de forma definitiva a partir da Revolução Industrial. Ele é resultado de inúmeros processos que incluem a perspectiva da propriedade privada, que vem desde o Império Romano, mas que se acirra no feudalismo. É também resultado do processo de evolução comercial e de trocas que foram alcançadas de forma singular no período do Mercantilismo e das Grandes Navegações. Ao longo do extenso processo de derrocada das monarquias houve processos paralelos e correlacionados de desenvolvimento comercial.

 

Burguesia reconstrói o poder econômico

Os burgueses, até então comerciantes sem poder político, começam a reorganizar a vida econômica e por conseguinte, a vida social e política. A aristocracia perde eficiência com os negócios e com a produção, começa a surgir um segmento mais capaz de gerar riqueza. Empresários e comerciantes que racionalizam a produção e a vida material não mais a partir de valores como a honra e nobreza, mas pelo cálculo, pela contabilidade, racionalidade, entre outros.

Dessa forma, uma nova era humana surge. Sociedades diferenciadas, divididas pelas suas funções de trabalho, coexistindo com o estatuto da propriedade privada, com o desenvolvimento do individualismo na solução de problemas, valorização da racionalidade na lida com as questões econômicas, trocas intensas de mercadorias e o desenvolvimento da liberdade civil e econômica como direitos. Tudo isso forma o caldeirão social de surgimento do capitalismo. É o contexto não apenas do capitalismo, como também da modernidade, do fortalecimento do Estado racional e do pensamento científico.

O capitalismo é um sistema onde os indivíduos possuem liberdades de estabelecer trocas, seja troca de mercadoria, seja trocas de valores, como a força de trabalho. Esse sistema, portanto, confere poder de organização da vida econômica aos indivíduos, que precisam deter direitos de posse sobre coisas. Seja dos meios de produção (como terras e indústrias, por exemplo) seja da força de trabalho (como no caso dos trabalhadores), ou da moeda, que é uma instituição que encarna valor. O Estado, portanto, garante esse direito de propriedade e o ambiente de liberdade para trocas. As condições reais dessa troca, são, no entanto, assimétricas.

 

Implicações versus consequências

 

Uma das implicações desse sistema é que sua manutenção e crescimento acontece apenas em via de mais investimentos e mais trabalho. Tem-se um movimento contínuo de transformar a natureza em valores econômicos e sociais. O metal transforma-se em cadeira, a folha de uma planta em remédio, e assim por diante. Esse processo só consegue se manter quando se dedica tempo e dinheiro para mais investimento, mais transformação. Ou seja, quando se acumula recursos para o próximo passo. Dessa forma, faz parte da base do capitalismo a acumulação e a concentração da riqueza, em princípio para geração de mais riqueza.
 
As consequências desse processo é a concentração de riqueza nas mãos de poucos, a criação de desigualdades sociais muito intensas, e a direção da vida econômica nas mãos desses poucos que tem riqueza concentrada para investir. A questão que se coloca para o capitalismo é, portanto, se é benéfico um sistema que, se não controlado, acaba não produzindo bem-estar para a maioria da população. Além disso, essa concentração seria inclusive uma ameaça ao próprio funcionamento do sistema, como alerta Piketty (2014). Ameaça tanto pela sua inviabilidade social quanto ambiental a longo prazo.
 
Cientes desses problemas do capitalismo, há aqueles que afirmam não haver solução a não ser implodir esse sistema e estabelecer outro, como pensam os comunistas. Outro grupo, acredita que o capitalismo poder ser controlado e ajustado para produzir riqueza e bem-estar social e ambiental ao mesmo tempo, esses são, em geral, os socialistas, sobretudo os da socialdemocracia. No entanto, todas essas alternativas também têm questionamentos e problemas que fazem com que essa discussão sobre qual o melhor modelo socioeconômico seja um enorme debate.

 

 

Referências/para saber mais:

DURKHEIM, Émile. A divisão do trabalho social. 2. ed. Lisboa: Editorial Presença, 1977.

HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem: do feudalismo ao século XXI. 22 ed. São Paulo: LTC, 2010.

BOBBIO, Noberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, GIANFRANCO. Dicionário de política. 11. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998. v. 1.

SMITH, Adam. A riqueza das nações: investigações sobre sua natureza e suas causas. Os Economistas. São Paulo: Nova Cultural, 1996. v. 1 e 2.

PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

 

Luciana
Uma jovem que estuda, trabalha e respira literatura. E sempre que possível está aqui para dar dicas de livros via internet.

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