Publicado em Literatura, Literatura Estrangeira

O Diário de Helga

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O Diário de Helga (Helga Weiss, editora Intrínseca) é um texto perturbador. É impossível lermos os depoimentos dessa sobrevivente do Holocausto e permanecermos indiferentes ao que aconteceu ao povo judeu no período da  segunda Guerra Mundial. Helga Weiss era uma pré-adolescente quando foi levada juntamente com seus pais ao gueto de Terezín em 1941. Voltou para Praga, atual República Tcheca, em 1945, acompanhada apenas por sua mãe,depois de haver passado por Auschwitz (um dos maiores campos de extermínio) e por outros campos de concentração. Durante esse tempo, Helga escrevia em um caderno sobre o cotidiano dos judeus nos guetos e as dificuldades absurdas às quais foram submetidos.

Além de escrever, ela também desenhava. Foi seu pai que a incentivou a desenhar tudo o que via nos campos. Quando Helga e sua mãe foram transferidas para Auschwitz, esses escritos foram entregues a um tio que havia ficado em Terezín. Depois da guerra, já de  volta a Praga, Helga recebeu de volta seu caderno.Ainda adolescente, começou a  trabalhar o texto, reescrevendo as memórias, procurando acrescentar outras coisas de que se lembrava e que não haviam sido registradas. Acrescentou também as memórias do que havia passado nos outros campos de concentração, como Auschwitz e Freiberg, onde não lhe fora possível registrar nada. Ela tomou o cuidado de manter o tom confidencial  e memorialístico dos diários. Procurou fixar algumas datas por aproximação, já que não era  possível se lembrar exatamente de quando as coisas aconteceram.

O texto foi escrito em tcheco. Na versão em inglês, Neil Bermel realizou a tradução das memórias, organizou-as de maneira a facilitar a compreensão dos leitores e inseriu notas esclarecedoras a respeito de determinados conceitos que os leitores não-judeus ou os que  desconhecem certos acontecimentos desse período histórico não estavam familiarizados. Bermel também selecionou alguns desenhos de Helga, fotos de sua família, dos campos de concentração, da guerra etc., inserindo-as em forma de encarte no livro. No final, ele acrescenta também uma entrevista que realizou com Helga Weiss em 2011. A tradução brasileira,  publicada pela editora Intrínseca, foi realizada a partir dessa organização de Neil Bermel.

Sobre o conteúdo do diário: Helga fez o possível para relatar detalhadamente aquilo pelo qual ela e os demais judeus passaram. Inicialmente,ela descreve os acontecimentos ocorridos às vésperas de serem levados ao gueto de Terezín: De como os judeus eram  discriminados; de como foram obrigados a levar uma estrela amarela costurada em suas roupas; de como perderam o direito de frequentar as escolas de Praga; da situação no transporte público, em que eles só podiam utilizar o último vagão do bonde; de como ficou proibido aos judeus assumirem cargos públicos etc. Há uma passagem em que a Helga menina se questiona quanto ao porquê de os judeus estarem sendo tratados daquela maneira. Ela reflete: “Somos a causa de uma coisa depois da outra e tudo é  culpa nossa,mesmo que não tenhamos feito algo errado. Não podemos evitar ser judeus nem qualquer dessas coisas. Ninguém pergunta, eles simplesmente sentem que precisam despejar sua raiva em alguém; e quem melhor do que – é claro – os judeus?” (p. 31). Helga também conta sobre a expectativa que havia quanto às convocações para o “transporte” que os levaria aos guetos, e sobre como ela e seus pais reagiram e se comportaram quando foram chamados.

Ela não deixou de falar também sobre a mentira que os nazistas insistiam em contar. O objetivo de Hitler e de seu governo era o de exterminar todos os judeus. Para realizar essa “barbárie civilizada” (termo utilizado por Michael Löwy em “Barbárie e modernidade no século XX”)*, os nazistas enganavam os judeus, dizendo que era necessário abandonarem suas casas e começarem uma vida nova em outro lugar próprio para eles, porque assim teria fim a perseguição antissemita.

Ela não nos informa quanto à religiosidade de sua família. São, obviamente descendentes de judeus, mas aparentemente seus pais enquadravam-se no grupo dos judeus assimilados(aqueles que adotavam a cultura europeia, considerando-a superior à judaica). Por duas ou três vezes, Helga faz menção ao Natal, festa cristã, e à importância que essa data tinha para ela e para outros judeus do gueto de Terezín. Em outro momento, ela conta que seguiu o jejum do Yom Kippur, o décimo dia após o Rosh-Ha’shaná (ano-novo judaico), em que os judeus passam 24 horassem se alimentarem. Porém, na entrevista concedida a Bermel ao final do volume, ela afirma que se casou com um gói, seu marido era católico.Portanto, entendemos que a perseguição aos judeus não era por religião, como havia sido durante o período medieval. A ideia de Hitler era a de purificar a raça “ariana”. Um ariano perfeito jamais  poderia ter sangue judeu correndo em suas veias. Por isso, todos que tivessem qualquer relação de parentesco com um judeu deveriam ser eliminados. Helga também relata sobre as precárias condições de vida em Terezín e de como era difícil ficar longe de seu pai, que precisou morar na ala masculina do gueto, e podia visitá-las apenas poucas vezes.

Seu relato sobre a despedida de seu pai e seu namorado foi emocionante. Eles foram convocados para “trabalharem” em  outro gueto (essa foi mais uma mentira nazista, pois os dois viajaram rumo a uma câmara de gás, principal instrumento de execução em massa utilizado por Hitler). Apesar da vida difícil em Terezín, Helga e sua mãe conheceram o sofrimento do Holocausto em sua potência máxima quando estiveram em Auschwitz. Toda a situação era piorada por conta do frio. As condições narradas são realmente absurdas, nós jamais saberemos descrever o quão horrível foi passar por essa humilhação sem causa, somente quem esteve lá é capaz de entender. Por isso, deixarei que o leitor procure esse diário e veja pessoalmente a visão adolescente de alguém que viveu toda a tragédia que foi o Holocausto.

Quanto à forma estilística do diário, a escrita de Helga não possui muitas das características básicas de um texto literário de qualidade. Porém,apesar de notarmos uma tentativa dela em produzir efeitos de sentido em seu texto, Helga Weiss não afirma em momento algum possuir o dom da boa escrita literária. Sua intenção é somente a de compartilhar suas experiências e mostrar que a importância histórica desse evento tão calamitoso diz respeito,não somente aos judeus, ou aos tchecos, alemães, austríacos e poloneses. O Holocausto foi e deve ser sempre considerado uma catástrofe de interesse mundial, para termos condições de impedir que uma tragédia da mesma proporção se repita.

 

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