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Crainquebille, de Anatole France – Mal entendido e questões de linguagem

mediaCrainquebille aferrava-se à sua decisão, obedecendo a uma força interior. De qualquer modo, ser-lhe-ia impossível agora avançar ou recuar. A roda de seu carrinho engatara-se desastradamente à de de uma carroça de leiteiro.

E ele clamava, arrancando os cabelos sob o gorro:

– Mas se eu lhe digo que estou esperando meu dinheiro! Desgraça de azar! Raio de miséria! Demônios do inferno!

A essas manifestações, que contudo exprimiam menos revolta que desespero, o agente 64 julgou-se insultado. E como, para ele, todo o insulto revestia necessariamente a forma tradicional, rotineira, consagrada, ritual e por assim dizer litúrgica de ‘Morte aos bigorrilhas!’, foi sob essa forma que ele recolheu e condensou em seus ouvidos as palavras do insurgente. Continuar lendo “Crainquebille, de Anatole France – Mal entendido e questões de linguagem”

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Conhecendo Mansfield Park, enfim!

mansfield-parkDesde adolescente sou apaixonada pelas obras da Jane Austen. Hoje, orgulhosa, posso dizer que possuo todas elas em minha prateleira. Mesmo quando a crise financeira me abateu e eu precisei vender mais da metade dos meus livros, olhei para os romances da Jane de maneira especial e os mantive. O primeiro que li foi “Orgulho e preconceito”, seguido por “Razão e sensibilidade”, “Emma”, “Persuasão”, “A Abadia de Northanger” e… Faltava um! Eu sabia seu nome, mas não o encontrava de nenhuma maneira. Cheguei a pesquisar na internet, procurar em bibliotecas, livrarias… Só havia a opção em inglês. Creio que em algum momento Mansfield Park foi traduzido, mas imaginei que, provavelmente, essa tradução era bem antiga e sua edição já não estava mais disponibilizada. Essa foi minha hipótese, mas a verdade é que realmente não sei o porquê de eu ter tido tanta dificuldade em encontrar esse romance.

Para minha enorme alegria, no ano passado fiquei sabendo que a Martin Claret havia há pouco tempo editado todos os romances da Jane Austen em edições belíssimas! Esperei ansiosamente pela Festa do Livro da USP (mais de 150 editoras oferecem um desconto mínimo de 50% em seus títulos), que geralmente acontece entre o final de novembro e começo de dezembro. Graças a Deus, apesar de ainda não ter me recuperado totalmente da crise, eu já pude me dar ao luxo de comprar alguns livrinhos lá… Mesmo que todas as minhas aquisições tenham sido muito boas, ter em mãos Mansfield Park me deixou verdadeiramente emocionada. Enfim! Sou fã da Jane há uns 15 anos e só agora pude desfrutar de uma de suas grandes histórias. A edição, com a capa alaranjada e detalhes floridos em dourado, é mesmo muito bonita. Quanto ao corpo do texto, observei alguns problemas de tipografia e de revisão final, mas nada que não dê para relevar. Continuar lendo “Conhecendo Mansfield Park, enfim!”

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Oralidade em “Luuanda”: Uma análise da obra de José Luandino Vieira

luuandaMeu objetivo é analisar a obra Luuanda, de José Luandino Vieira, observando os traços de oralidade presentes nos contos. Esses traços serão observados levando em conta especialmente dois aspectos: a posição e o estilo do narrador em relação à tradição oral angolana da contação de histórias, e a estrutura do texto, tais como as construções frasais, sintáticas e do léxico. Antes, porém de fazer essa análise, será necessário falar rapidamente sobre a obra em questão, seu autor e o contexto em que ele a escreveu. José Luandino Vieira nasceu em Portugal, mas mudou-se ainda bebê para Angola. O autor considera-se angolano, ele mesmo disse: “se me perguntarem: ‘és angolano?’, eu tenho uma base cultural para responder a isso, e não apenas um passaporte.” Dessa forma, Luandino, assim como os demais angolanos, não aceita a condição de colonizador e passa a lutar pela libertação de seu país. Luandino é preso, e na cadeia, ele escreve Luuanda, publicado em 1964. Continuar lendo “Oralidade em “Luuanda”: Uma análise da obra de José Luandino Vieira”

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A morte do inimigo

a-morte-do-inimigo-hans-keilson-450Hans Keilson foi um romancista alemão que só passou a ser reconhecido como escritor poucos anos antes de morrer, em 2011, aos 102 anos. Porém, quando o descobriram, os críticos se depararam com verdadeiras obras-primas. Entre elas está o romance A morte do inimigo. Como leitora, sou capaz de arriscar que na literatura contemporânea há poucos romances tão bem elaborados e tão genialmente pensados como esse.

Um homem, cujo nome não é citado em momento algum do livro, descreve suas experiências da infância, juventude e vida adulta e de como toda sua vida e de seu povo gira em torno de um inimigo, nomeado como “B.” O maior problema é que esse protagonista não aceita pensar em seu inimigo da mesma maneira que pensam os outros de seu povo. Ele quer entender o porquê dessa inimizade e cultivá-la tanto quanto se cultiva uma amizade. O medo de ser descoberto faz com que ele entregue o manuscrito para um advogado, que o enterra e, somente após o fim da Segunda Guerra Mundial, decide entregar o texto a um amigo, para que este opine sobre o que se deve fazer com aquilo. Continuar lendo “A morte do inimigo”

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A casa dos amores impossíveis

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Confesso que abri o romance A Casa dos Amores Impossíveis (Editora Prumo) sem esperar muito dele, mas acabei me surpreendendo. A Narrativa é bem construída e muitos elementos do texto permeiam nossos sentidos, ao mesmo tempo em que tudo é muito real e grotesco, o que às vezes assusta ou provoca uma certa aversão.

O romance tem como principais personagens as mulheres da família Laguna. Cada uma é protagonista à sua vez, isto é, a narrativa perpassa várias gerações de mulheres, uma protagonista gera a seguinte. As Laguna vivem sob uma maldição: todas estão condenadas a sofrer por amor e a gerar filhas que perpetuarão essa sentença. A história começa no final do século XIX, em uma aldeia da Espanha. A bruxa Laguna, mãe de Clara, a primeira protagonista, já era fruto da terrível maldição. Ela avisa sua filha de que não deve se envolver com os homens, pois o destino desse romance seria trágico, mas Clara acaba se apaixonando por um fazendeiro, que lhe compra um casarão e a abandona, deixando-a grávida. Clara transforma o casarão no prostíbulo mais frequentado da região, ganha muito dinheiro, mas passa o restante de sua vida se lembrando do fazendeiro e planejando vingança. Meses depois, nasce sua filha Manuela, menina doente e feia, que é desprezada pela mãe. Manuela é a segunda protagonista. Considero-a uma personagem fraca e pobre, ela é apresentada de uma forma muito diferente das outras Laguna. Creio que Cristina López Barrio tenha feito isso de maneira proposital, pois Manuela, diferentemente de sua mãe, é uma mulher fraca e sem carisma. Dela, nasce a terceira protagonista, Olvido (cujo nome em espanhol significa esquecimento, já que Manuela busca o fim da maldição). Olvido, para mim, é a Laguna mais interessante do romance; ela parece ser a verdadeira protagonista, é a que permanece por mais tempo na história e a que está presente em pelo menos três gerações. Olvido dá à luz Margarita, que por sua vez… É a partir dela que surge a esperança pelo fim da maldição. Dizer de que maneira se dá essa esperança seria o mesmo que contar o final da história, e não posso fazer isso! Tudo o que posso adiantar é que, apesar da possibilidade do fim da maldição, a família Laguna nunca poderá dar seu suspiro de alívio.

O que mais chamou a minha atenção nesse romance foi a maneira como a autora lidou com o tempo. A narrativa é muito veloz, o romance abrange um período de quase 100 anos. Apesar disso, nota-se em muitos momentos uma sensação de monotonia, e é justamente isso que destrói as Laguna, pois o sofrimento é estendido quando o tempo não passa e nada de novo acontece. Cristina López Barrio soube elaborar com perfeição a incoerência entre a rapidez da narrativa e a monotonia que acaba com as forças das Laguna.

O estilo narrativo também é muito interessante. Trata-se de uma linguagem sensual, sugestiva, quase que erótica. É também sensorial, isto é, envolve os cinco sentidos. Acima de tudo isso, posso dizer que o romance é uma verdadeira prosa poética. Essa poesia, no entanto, disputa espaço com o estilo grotesco presente em quase todo o romance.

A Casa dos Amores Impossíveis é um romance que permeia o fantástico, mas sem deixar de ser real. É uma obra repleta de antíteses: velocidade narrativa x monotonia, prosa poética x estilo grotesco, fantástico x real. São essas oposições, aliadas a um modelo expressionista muito bem trabalhado que me convenceram de que Cristina López Barrio pode sim entrar no grupo seleto dos bons romancistas atuais.

Título: A casa dos amores impossíveis

Autor: Cristina López Barrio

Editora: Prumo

Ano da publicação: 2013

Número de páginas: 312

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As Memórias Perdidas de Jane Austen

as memorias perdidas de jane austen (1)Como toda fã de Jane Austen, sempre fui muito curiosa a respeito de sua biografia: Como começou a escrever, o que a motivava, de que maneira conseguiu a aceitação e a admiração do público machista de sua época, por que morreu tão cedo, privando-nos de outros possíveis romances tão agradáveis quanto o que escreveu… Porém, acima de tudo, minhas maiores perguntas sempre foram: o que havia de errado com ela para nunca haver se casado, sendo que naqueles anos (finais do século XVIII e começo do XIX) todas as mulheres desejavam e deviam se casar? E por que, apesar de sua solteirice, somente escrevia romances de amor cujos conflitos giravam em torno do casamento e de arranjos sociais?

Meus conhecimentos a respeito desse mistério nunca passaram de especulações. Eu imaginava simplesmente que Jane não era atraente física nem financeiramente, por isso jamais conseguiu um marido. Cheguei a pensar também que ela era uma mulher com pensamentos avançados diante de seu tempo e preferiu, por ideologia, permanecer solteira. Essa segunda hipótese não tem muita sustentação, já que todos os seus romances demonstram que ela admirava a instituição do casamento, desde que ocorresse por amor. Jane criticava o casamento arranjado e escrevia sobre como o amor deve ser o principal motivo para a união entre um homem e uma mulher. Quanto à primeira hipótese, descobri que realmente sua família não possuía muitos recursos financeiros, Jane não tinha um bom dote para oferecer a um pretendente, isso pode haver dificultado a aproximação dos rapazes. Quanto à sua aparência, não obtive bons resultados de pesquisa. Não há uma imagem que a retrate fielmente, mas apenas retratos inspirados em uma pintura que Cassandra, irmã de Jane, tentou fazer. Portanto, diante do fracasso das investigações, minha curiosidade a respeito da autora permaneceu vivo e incômodo.

Foi então que me deparei com o romance As memórias perdidas de Jane Austen, de Syrie James, publicado pela editora Record, e pensei: Uau! Então quer dizer que Jane chegou a escrever suas memórias, e eu nunca soube disso! É claro que ela deve ter escrito sobre sua vida amorosa e sobre o porquê de jamais haver encontrado um grande amor… Contudo, antes mesmo de iniciar a leitura, ao ler as orelhas do livro, já me dei conta de que Syrie James não era a organizadora das memórias encontradas, e sim sua criadora. Confesso que essa informação me decepcionou muito no começo. Afinal, não se tratam das memórias de Jane Austen, e sim de mais uma fã que decidiu fazer especulações, da mesma forma como eu fazia, só que com um pouco mais de criatividade. De qualquer maneira, como eu estava com o livro em mãos, e realmente precisava lê-lo, já que o havia escolhido para escrever meu parecer a seu respeito, iniciei a leitura.

O romance é escrito em primeira pessoa, na forma de memórias. Há um esforço enorme por parte da autora em fazer com que o leitor acredite que aqueles escritos são mesmo de Austen. Inclusive a Dra. Mary I. Jesse, presidente da Fundação Literária Jane Austen, entra na brincadeira ao escrever um prefácio relatando o processo de descoberta desses diários. Pura ficção. Esse jogo me agradou bastante, nunca havia me deparado com algo parecido. Por isso, quando finalizei a leitura do prefácio, meu estado de espírito já era outro para a leitura do romance. Syrie foi muito feliz em suas especulações. Para criar as memórias, ela se inspirou nos próprios romances de Austen, acreditando haver neles insinuações autobiográficas. Criou para a Srta. Jane um pretendente tão apaixonante quanto o Sr. Darcy, de Orgulho e Preconceito. Syrie também procurou reproduzir o estilo da romancista, criando personagens planas, muitas delas sem grande relevância para o enredo. Houve também uma tentativa de reprodução do estilo linguístico. Tudo é muito bem elaborado. O leitor de Jane Austen, familiarizado com seu estilo, é capaz de perceber que aquele texto não poderia ter sido escrito por ela. Porém, um leitor menos atento pode deixar isso passar despercebido e é até possível que alguém leia essas memórias acreditando realmente que foi Jane quem as escreveu. O final, infelizmente, não pôde ser feliz, como são os finais dos romances de Jane. Sabemos que ela nunca se casou, por isso, Syrie precisou se manter fiel a esse fato.

A narrativa, no entanto, é deliciosa, tanto que podemos nos esquecer de Syrie e de sua brilhante criatividade, para nos envolvermos nas memórias como se elas expressassem verdadeiramente o que se passou na vida de nossa amada autora. No romance, o sobrinho de Jane lhe pergunta: “Você quer dizer que, se eu acreditar na sua história como a contou, ela será tão boa como se fosse de verdade?” Neste caso, eu responderia que sim, tanto que a curiosidade em saber o que realmente se passou quase é deixada em segundo plano. Quanto ao sentimento de perda que temos quando nos lembramos de sua morte precoce, o romance também oferece um consolo, quando narra o encontro de Jane com uma vidente que diz: “Você não é como as outras, estou dizendo! Você viverá para sempre! Você será imortal!”

Título: As memórias perdidas de Jane Austen

Autor: Syrie James

Editora: Record

Ano: 2013

Nº de páginas: 319