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O Cerne Da Matéria

cerne-matériaDesde os primórdios dos tempos o ser humano tem consciência da complexidade e dos mistérios que envolvem sua existência e a do mundo que o cerca. Ao longo do tempo e da história todos nós fizemos as clássicas perguntas sobre de onde viemos, sobre como surgiu o mundo e do que ele e nós somos feitos, entre outras questões e dúvidas fundamentais. A curiosidade e a própria angústia de desejar descobrir a realidade das coisas tem movido a humanidade  a buscar respostas e explicações através da religião, da filosofia e da ciência. Em o Cerne da Matéria,  da Editora Companhia Das Letras, uma parte da história dessa busca por respostas nos é apresentada através do prisma da física de partículas.

A busca científica pela compressão do Universo e da matéria que originou a vida, por parte da física de partículas foi movida nas últimas décadas pela tentativa de comprovar a existência do Bóson de Higgs que ficou conhecida como partícula-Deus, a partícula que segundo os físicos  dá massa a todas as coisas.Para se comprovar a existência do Bóson de Higgs foi necessária idealização e o desenvolvimento de tecnologias para detectar essa partícula o que resultou nos aceleradores de partículas, e mais precisamente no mais moderno acelerador da atualidade o LHC, ou Large Hadron Collider que foi construído do CERN que é hoje o mais avançado centro de pesquisa em física e está situado em Genebra na Suíça. No entanto entre as primeiras ideias e descobertas dos físicos teóricos e o funcionamento pleno de aceleradores de partículas potentes houve uma longa caminhada.

E essa caminhada não é definida unicamente pela vontade  dos cientistas em descobrir e avançar no conhecimento das coisas. Os rumos e avanços da ciência dependem e ainda vão depender também de fatores como política, economia , surgimento de Guerras, e da própria barreira tecnológica.Todos esses fatores determinam, atrasam ou mudam os rumos das pesquisas.E todos os obstáculos gerados por esses fatores surgiram e tiveram de ser contornados e resolvidos para que a pesquisa pudesse atingir os patamares atuais.

Por se tratar de um livro de base científica, escrito por um físico teórico sobre um assunto tão complexo e controverso, poderia se esperar o texto fosse primordialmente um texto técnico e voltado para estudiosos da área, em outras palavras, poderia se esperar que esse livro fosse terrivelmente entediante para os leigos que se aventurassem em sua leitura.Não é o caso do livro de Rogério Rosenfeld.O Cerne da matéria é um livro acessível e compreensível a todos os públicos. Apesar de em muitos momentos  vários conceitos e termos da física serem apresentados e analisados, o livro tem um viés mais histórico e popular no melhor sentido do termo. A física nesse contexto acaba por se tornar mais compreensível e interessante para aqueles que não são estudiosos da área.

Essa desmistificação e tentativa de aproximar o grande público dos propósitos , avanços e até das limitações da física de partículas é extremamente necessária diante do fato que naturalmente ficamos apreensivos quando pensamos no desenvolvimento e na manipulação científica de elementos e tecnologias que podem resultar em coisas perigosas e danosas como bombas atômicas, ou qualquer outra arma ou tecnologia que possa oferecer riscos ao planeta ou serem usados para matar e ferir em massa.

Essas ideias de uma ciência perigosa ou com propósitos malévolos  que pode estar no imaginário popular desperta reações e atitudes alarmistas e sensacionalistas nas pessoas, estejam elas bem ou mal intencionadas. Na introdução do livro um desses exemplos de divulgação alarmista com efeitos trágicos é dado. Após ver notícias sensacionalistas na mídia por ocasião do início do funcionamento do LHC que segundo alguns poderia dar início a eventos catastróficos na Terra, uma jovem indiana cometeu suicídio. Um exemplo triste de como o nosso medo e incompreensão diante da ciência podem resultar e tragédias e equívocos.

A descoberta do Bóson de Higgs aconteceu e foi um passo importante para a ciência, mas pouco se sabe ainda sobre o Universo, a vida e a matéria se levarmos em conta a imensidão das questões sem respostas. Apesar de ter contribuído indiretamente para o desenvolvimento de tecnologias e avanços científicos a pesquisa nessa área  é movida pelo simples desejo e busca pelo conhecimento humano,  o que para muitos talvez não justifique o investimento de milhões de dólares que a pesquisa demandou até hoje e demandará para que possa prosseguir.

Nosso cotidiano, nossa vida na prática não vai mudar com a descoberta da existência do Bóson de Higgs.De modo geral a pesquisa científica em muitos aspectos pouco elucidou os mistérios da existência, mas as paixões, os desafios e as dúvidas que movem a ciência e o espírito humano não podem ser evitados e ignorados, nem muito menos serem vistos como desnecessários.Essa busca deve continuar com humildade e com bom senso e também com o conhecimento do que se fez e se tem feito no campo científico.Diante disso o livro de Rogério Rosenfeld é um instrumento eficaz e interessante para leigos que querem dar os primeiros passos rumo a esse propósito.

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Como se preocupar menos com dinheiro

COMO_SE_PREOCUPAR_MENOS_COM_DINHEIRO_1356304964PQual é a relação entre dinheiro e felicidade? De quanto é preciso pra se sentir rico? Do que se deve abrir mão para poder se alcançar a realização financeira? Esses são assuntos que geralmente fazem parte de nossos pensamentos e são temas recorrentes de livros e conversas do cotidiano. A crença universal e coletiva para essas  e outras questões costuma ser a de que precisamos de quantidades enormes de dinheiro para nos sentirmos  ricos, para podermos de uma vez por todas, resolvermos nossos  problemas e nos livrarmos das preocupações financeiras. Mas em  “Como se preocupar menos com dinheiro” da Editora Objetiva, o filósofo John Armstrong confronta essas nossas crenças e analisa a essência  das expectativas, emoções e equívocos  mais comuns que construímos em torno do dinheiro e da riqueza.

O grande diferencial do livro é distinguir problemas financeiros de preocupações financeiras. A princípio não parece se tratar de coisas diferentes, mas problemas com dinheiro refletem o quanto matematicamente falando, necessitamos para sobrevivermos ou o quanto precisamos ganhar e poupar para concretizarmos o desejo de comprarmos uma boa casa, um carro importado, entre outros bens e serviços. Já as preocupações com dinheiro refletem nossas emoções, nossa cosmovisão, os valores psicológicos e filosóficos que temos em relação ao dinheiro. Em resumo, a análise e as questões propostas no livro não estão em como ganhar mais dinheiro ou aprender a viver com menos. Poupar dinheiro, conseguir ganhar mais, aprender a viver com menos, tudo isso também é importante na busca por uma solução para nossas finanças, mas para o autor essas medidas são apenas parte da solução e não a parte mais importante a princípio.

Para chegarmos a essa conclusão de que o dinheiro na verdade é um coadjuvante na fórmula da felicidade e assim mudarmos nossa relação com ele, o autor propõe que façamos uma análise e uma reflexão profunda do que é importante, prioritário e do que nos traz bem -estar e realização na vida. Quando tivermos a resposta poderemos observar como projetamos erroneamente isso em bens, dinheiro e fantasias de riqueza. E o mais importante: descobriremos como podemos obter a mesma satisfação sem que ser rico seja uma condição para isso. O importante é descobrir que o que geralmente desejamos está erroneamente condicionado ao dinheiro.

Por exemplo, podemos  sonhar viver numa ampla e linda casa situada em um bairro nobre, arborizado e bonito e ali nos vermos em reuniões alegres e agradáveis com a família e os amigos, todos reunidos em volta de uma bela mesa de jantar ou num churrasco em um belo jardim.Esse é um desejo digno e bom, porém a frustação pela falta de dinheiro nos faz acreditar que não temos condições de realizar esse sonho, quando na verdade a parte essencial, ou seja, bons momentos de descontração e afeto com as pessoas que amamos, são coisas que não se pode comprar. Elas nada têm a ver com  dinheiro.Em resumo, construímos e caímos nas armadilhas que nos fazem condicionar nossa felicidade e realização familiar, social e pessoal com altos padrões de vida e consumo.

A mídia, a publicidade, e a nossa cultura que tem um padrão restrito e superficial de sucesso e felicidade ainda nos empurram para esses esquemas de pensamento deturpados.Porém omitindo o aspecto financeiro que nos priva dos bens que não podemos comprar, resta ou emerge a possibilidade real de termos  uma vida próspera de prazeres simples e de expectativas alcançadas sem que ficar rico seja imprescindível. Isso parece tão óbvio, mas na prática  perdemos muita qualidade de vida e muitas oportunidades de satisfação e prazer por não sabermos separar o que realmente queremos do que achamos que queremos.

O livro não desconstrói nossos principais mitos e falsas expectativas sobre riqueza desprezando os benefícios óbvios de se ter grandes quantias de dinheiro. Nesse aspecto John Armstrong é bem lúcido. É fato que com dinheiro podemos viajar, nos instruir, praticarmos filantropia e obtermos experiências prazerosas que contribuem para nosso enriquecimento humano. Mas precisamos lidar com a frustração de  não termos dinheiro suficiente para nos proporcionarmos essas coisas. Essa é uma frustração real e que pode ser útil para nosso amadurecimento se soubermos extrair as lições certas das privações. Do mesmo modo como uma pilha de tijolos em si mesma não é garantia de uma bela construção, ter muito dinheiro não é garantia de felicidade e plenitude. O resultado vai depender de outros fatores como personalidade, cosmovisão e a riqueza pessoal de quem o possui. E essa riqueza pessoal, essa capacidade de encontrar o bem- estar pode ser obtida sem necessariamente precisarmos ser ricos. Nisso consiste, a lucidez do livro.

Ao contrário dos vários tipos de relacionamento que vamos ter ao longo da vida tais como o casamento e as amizades, por exemplo, que podem vir a acabar, a nossa relação com o dinheiro será para a vida toda. E o fato de vivermos numa cultura na qual o dinheiro é símbolo de status, poder e riqueza, além de ser o meio estabelecido de obtenção dos itens mais básicos e necessários para nossa sobrevivência, essa relação com dinheiro será intensa e muitas vezes problemática. Sempre de um jeito ou de outro vamos acabar projetando as nossas expectativas, desejos e valores no dinheiro e isso pode ser feito de modo saudável ou nocivo. Por isso refletir e repensar sobre a real importância do dinheiro para nossa felicidade, assim como o poder real ou imaginário que damos a ele para ditar e gerar nossa satisfação é um fator fundamental para aprendemos a viver com mais bem-estar e sem mais preocupações do que o necessário.

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Pulphead – O Outro Lado da América

13455_gO ensaio é o gênero literário que está em alta no momento e cada vez mais a literatura de não-ficção ganha espaço na sociedade.Isso se deve talvez, entre outras razões à liberdade de temas e formas de linguagem que este gênero permite tanto ao escritor quanto ao leitor.Ainda que os ensaios tenham como matéria-prima a realidade e produzam textos pautados nela é um equívoco supor que esses textos sejam chatos,formais e desprovidos da linguagem poética e da criatividade que caracterizam os textos de outros gêneros da literatura.Nesse cenário favorável a esse estilo literário surgem e se destacam grandes escritores dentre os quais o jornalista John Jeremiah Sullivan, que tem sido apontado como um dos expoentes desse gênero.Em Pulphead – O Outro Lado da América, da Companhia das Letras, quinze de seus ensaios abrangendo os mais variados temas foram reunidos nesse livro que explora como diz o subtítulo, outros aspectos, outros lados da sociedade e da identidade americana.

Esse novo olhar e essas novas abordagens sobre temas e ícones americanos conhecidos assim como a descoberta de temas e personagens novos só é possível através do gênero literário certo, mas também por causa da capacidade de Jonh Jeremiah Sullivan de não se limitar e buscar ir além do que já se pensou, viu ou se falou sobre algo ou alguém.Ele faz parte do grupo de escritores que consegue transpor os julgamentos rasos e as opiniões óbvias e mais evidentes, que geralmente acabam sendo o ponto final para a maioria das pessoas, o que as impede de enxergarem coisas novas e ângulos diferentes sobre o que parece ser um tema esgotado e fácil.

Essa característica como escritor, de ir além, possibilitou que ele escrevesse ensaios com aspectos inusitados sobre pessoas e temas que normalmente são retratados de modo estereotipado e superficial como jovens evangélicos reunidos para um festival de rock cristão, pessoas que participam de reality shows ou um artista americano controverso, por exemplo.Como um explorador que busca novos caminhos e pistas sobre lugares e assuntos amplamente conhecidos e explorados, o autor busca e encontra outras abordagens para apresentar sua cosmovisão sobre aquilo que e sobre quem já se pensa ter dito tudo ou o suficiente.

Os temas não poderiam ser mais estranhos e desconexos entre si tais como artistas decadentes e polêmicos, como Michael Jackson, arqueologia, Disney, séries da MTV, Festival do rock cristão entre outros, mas em todos esses temas Sullivan acha o viés para questionar ou mostrar os valores ideológicos e culturais americanos assim como seus equívocos e virtudes.Vemos passar por esses temas e personagens e neles serem exemplificados aquelas características típicas dos valores da América.

Um detalhe da capa que pode passar despercebido e de imediato traduz a proposta do livro: o leitor precisa raspar as tarjas ( como se faz com uma raspadinha) para que  o subtítulo seja revelado.Esse recurso gráfico traduz de modo simples e criativo o que o autor pretendeu fazer através dos ensaios: sugerir a reflexão e a descoberta de outras facetas da sociedade e dos ícones americanos que estão ocultas talvez para ela mesma e também para o resto do mundo.

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A Mente Assombrada

a_mente_assombrada_120513Muitos de nós, talvez todos, já tivemos alguma experiência estranha como sentir a presença de alguém  bem perto de nós e ao olhar para trás não ver ninguém.Ou então ouvir alguém chamar seu nome e constatar que a casa está vazia.Ou ainda ter a impressão de ver luzes ou manchas ao fechar os olhos para dormir.Essas são apenas algumas entre muitas outras “peças” que o cérebro pode nos pregar.No entanto apesar de serem experiências relativamente comuns nunca nos ocorre que essas “peças”  que o cérebro prega na realidade são mais do simples erros de percepção, são alucinações: ou seja, a capacidade ou o ato de ver ou ouvir coisas que não existem. De imediato isso nos causa espanto pois costumamos pensar que apenas pessoas vítimas de loucura sofrem alucinações.Mas em  “A mente assombrada” da editora Companhia Das Letras, o neurologista Oliver Sacks além de desmistificar muitas de nossas crenças, sendo a principal delas a de que as alucinações são coisa de gente louca, desvenda e explica também muitos desses complexos mecanismos da nossa mente  que produzem essas manifestações assombrosas e também intrigantes que são as alucinações.

As alucinações são mais corriqueiras do que imaginamos e ao contrário do que costumamos acreditar elas não pertencem unicamente ao campo da loucura.Essa afirmação ou revelação do autor feita já no início do livro surpreende e desperta a curiosidade do leitor, mas também causa apreensão pois ela remove a segurança que até então poderíamos ter de que por não sermos loucos jamais poderemos ver, ouvir ou sentir coisas irreais.Durante muito tempo até mesmo para os profissionais da saúde essa suposição de que alucinações são indícios unicamente de uma grave perturbação mental era a interpretação mais lógica ou até mesmo a única interpretação plausível para sintomas como ouvir vozes, por exemplo.O autor faz menção inclusive de um experimento feito em 1973 no qual alguns pseudopacientes procuraram diversos hospitais nos Estados Unidos se queixando apenas de terem “ouvido vozes”  sem relatarem nenhum outro sintoma e sem apresentarem nenhuma alteração de comportamento.Todos foram diagnosticados como esquizofrênicos.Nenhuma outra possível causa para o sintoma “ouvir vozes” foi cogitada.A publicação dos resultados do experimento causou furor na ocasião, mas talvez ainda hoje seja plausível dizer que as mesmas constatações errôneas provavelmente seriam tidas por muitos profissionais da saúde caso um experimento semelhante fosse feito novamente.

Mas além de nos surpreender com a afirmação de que pessoas sãs podem sofrer e provavelmente em algum momento sofreram ou vão sofrer algum tipo de alucinação, Oliver Sacks nos apresenta diversas causas, síndromes e mecanismos neurológicos que produzem,  induzem ou favorecem a manifestação das alucinações nas mentes de pessoas perfeitamente sadias psiquiatricamente falando.Até mesmo pessoas cegas podem “ver” coisas que não existem.Nesse (e em outros casos)  essas visões não são “psiquiátricas” como explica o autor, e sim uma reação do cérebro à perda da visão, a curiosa e assustadora síndrome de Charles Bonnet, bem documentada e explicada no livro.Em síntese o ponto de partida e o desenvolvimento da narrativa se baseiam na ideia principal de que além da loucura, fatores orgânicos, síndromes incomuns, o uso ou abstinência de  drogas, enfim, diversos fatores químicos, neurológicos, orgânicos, culturais e sociais podem produzir, induzir e favorecer o aparecimento de alucinações em pessoas que não sofrem de perturbações mentais.

Ao longo do livro o autor apresenta e esmiúça essas causas  compartilhando com o leitor além do seu conhecimento científico, as suas experiências pessoais e as de seus pacientes e colaboradores com as alucinações equilibrando bem o lado médico com o elemento humano.Outro aspecto interessante abordado pelo livro é o lugar que as alucinações possuem em cada cultura e sociedade.Enquanto que para nós, para a sociedade Ocidental elas são um estigma, são manifestações temidas e socialmente desconfortáveis, em outras culturas e civilizações elas são valorizadas, vistas e buscadas como experiências enriquecedoras ou reveladoras para os homens.O autor sugere ainda que as experiências alucinatórias foram e são elementos importantes que favoreceram direta e indiretamente  a composição dos mitos, lendas e folclore de diversas culturas, assim como o surgimento de muitos elementos e crenças da própria arte e religião, uma sugestão bem sugestiva e polêmica.

Oliver Sacks apesar de ser um homem da ciência, renomado neurologista e escritor, é uma figura amigável e não apresenta seu conhecimento e suas próprias experiências alucinatórias (obtidas com o uso de drogas durante sua juventude principalmente) de modo arrogante e frívolo.Ele compartilha seu conhecimento médico, suas experiências e igualmente seu assombro e fascínio pela engenhosidade, pelas armadilhas e muitas vezes pela assustadora autonomia do cérebro e da mente sobre nós. O resultado é um livro muito interessante e esclarecedor em muitos aspectos.Analisar e refletir sobre os fenômenos e manifestações da mente pode nos assustar e também nos fascinar.Contudo o maior benefício desse processo de conhecimento e reflexão proporcionado pelo livro talvez seja nos libertar dos estigmas e nos ajudar a encontrar mais naturalidade e compreensão para nós e para as outras pessoas quando formos assombrados e surpreendidos por nossa própria mente e cérebro.

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Triste Fim De Policarpo Quaresma

85023_ggO romance “Triste Fim De Policarpo Quaresma” ( Editora Penguin & Companhia das Letras) do escritor Lima Barreto foi inicialmente publicado na seção de folhetins do “Jornal do Commercio” entre Agosto e Outubro de 1911.Somente quatro anos depois foi publicado em livro, se tornando posteriormente um clássico da literatura brasileira. Com humor, ironia e fazendo uso de uma crítica inteligente e lúcida sobre os costumes políticos, sociais e culturais do país, o texto e o estilo do autor cativam e demonstram o talento deste escritor brilhante que enriquece o rol de grandes escritores que nosso país já teve.

A história de Lima Barreto tem como protagonista o major Policarpo Quaresma, um subsecretário do Arsenal de Guerra que vivia uma vida simples e metódica na companhia da irmã Adelaide já que não havia constituído família, vivendo apenas para seu trabalho e para seus estudos sobre o Brasil. Após tantos anos dedicando sua vida ao estudo e ao amor pela pátria ele havia se tornado um grande entusiasta, defensor ferrenho e incentivador do costumes genuinamente brasileiros. Homem de hábitos simples e sem ambições sociais  tinha a consideração da vizinhança e a simpatia de alguns, apesar de parecer um tanto excêntrico ao olhos deles. Mas sua vida pacata e respeitada muda quando ele resolve sugerir através de um requerimento encaminhado ao Congresso Nacional que “o tupi-guarani fosse adotado como língua oficial e nacional do povo brasileiro”. O requerimento de Quaresma foi motivo de chacota e incompreensão por parte sociedade carioca. Por semanas ele foi ridicularizado e hostilizado até mesmo pela Imprensa o que o levou e ter uma crise nervosa e a ser internado no hospício.

Esse havia de ser o primeiro golpe contra o idealismo e o patriotismo ingênuo de Quaresma. Apesar desse primeiro fracasso, ele tenta implantar suas ideias e provar a superioridade e a fertilidade do país através da agricultura ao vender sua casa na cidade e ir morar num sítio no interior. Porém nessa empreitada agrícola ele também fracassa devido às dificuldades naturais, aos problemas de infraestrutura e aos entraves da política local.Nesse momento ocorre a Revolta da Armada e Quaresma prontamente volta à cidade e se junta aos partidários de Floriano Peixoto.Enxergando na política e na figura de Floriano a possibilidade de contribuir com a nação, ele entrega ao Presidente suas propostas por escrito, propostas que são recebidas com desinteresse pelo mesmo. O descaso do presidente, as atrocidades e as incoerências da guerra são fatais para natureza pacífica e para os ideais nacionalistas, moralmente puros e elevados de Quaresma. Após criticar o tratamento e as execuções dos prisioneiros que saíram perdedores da revolta, ele é tido e tratado como traidor sendo então destinado ao seu triste fim..

Com o desenrolar das aventuras e das desventuras do Major Policarpo Quaresma,  Lima Barreto disseca e critica de forma perspicaz vários temas de cunho social, cultural e político característicos do país. O papel da mulher na sociedade cuja única aspiração deveria ser o casamento é exemplificado e criticado através principalmente dos personagens de Ismênia e de Olga. Em relação às estruturas sociais e culturais da nação, ele tece uma aguçada crítica e faz uma acertada descrição das elites brasileiras e suas idiossincrasias. Seus personagens representados por militares, doutores, entre outros, só fazem ostentar e almejar patentes, diplomas e cargos imerecidos e adquiridos através da troca de favores, de adulações e favorecimentos políticos. Movidos unicamente por ambições pessoais, é por esse tipo de gente e é através desse tipo de oportunismo cultural que as camadas sociais brasileiras são formadas ao longo dos tempos.

Em meio a essa gama de personagens interesseiros e alheios ao ideal de construção de uma pátria próspera culturalmente, socialmente e politicamente, a figura doce e visionária de Quaresma contrasta e é empurrada cada vez mais no isolamento social.A despeito de suas nobres intenções, o erro fatal de Policarpo era que a ideia que ele tinha do Brasil vinha dos livros e não da realidade. E seu amor por essa pátria idealizada ofuscava, pelo menos inicialmente, os seus defeitos aos olhos dele. Mas a cada desilusão que tinha ao compartilhar seus ideais nacionalistas com a sociedade o verdadeiro Brasil ia surgindo para ele, assim como vai surgindo para o leitor, acabando com qualquer esperança ingênua de mudança.

Os temas abordados e as críticas feitas por Lima Barreto nessa  obra ainda são atuais e pertinentes para caracterizar e analisar a nossa sociedade o que mostra que em muitos aspectos poucas coisas mudaram em nosso país desde sua época. Por sua importância e relevância histórica e social o livro merece seu lugar entre os clássicos de nossa literatura. Seja ao confirmar ou desmistificar nossas ideias sobre o Brasil, ler esse livro é uma grandiosa aula para compreendermos o país em que vivemos.

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Território da Emoção

1144A linguagem médica com todos seus termos técnicos normalmente costuma ser e parecer muito complicada aos olhos público em geral.Soma-se a isso o problema das tensões crescentes e do distanciamento que rege a relação médico-paciente na atualidade. Esses são alguns fatores que ainda constituem importantes obstáculos a serem superados para tornar o conhecimento médico e científico mais prático e presente na vida das pessoas. E apesar da mudança de comportamento de muitos profissionais da saúde e de termos acesso a muita informação e conteúdo médico simplificado na mídia, em especial na internet, ainda se faz necessário saber selecionar e aplicar esses conteúdos para que eles de fato façam diferença em nosso cotidiano.

No livro “Território da Emoção-crônicas de Medicina e Saúde” da Editora Companhia das Letras, o escritor e médico sanitarista (falecido em 2011) Moacyr Scliar, consegue derrubar esses dois obstáculos: tanto seleciona e traduz o conhecimento sobre saúde e medicina em termos mais acessíveis ao público, quanto consegue personificar e ter a postura e a abordagem ideal do médico.O livro é uma coletânea das crônicas que ele escreveu durante os anos em que foi colunista do Jornal Zero Hora de Porto Alegre.

A escolha da crônica não poderia ter sido mais oportuna pois devido a sua brevidade, sua linguagem coloquial e o fato de estar ligada aos fatos do cotidiano, ela tem todos os elementos capazes de tornar a informação familiar e acessível ao leitor. Ao lermos as crônicas de Moacyr Scliar, vamos entrando em contato com as informações médicas de modo despretencioso e acessível para o público leigo. Por meio da informalidade típica desse gênero literário, Moacyr não apenas instrui e compartilha seu conhecimento sobre medicina, mas compartilha também sua experiência de vida, sua invejável cultura geral e suas memórias com o leitor. Assim, as crônicas que possuem a medicina como eixo, acabam naturalmente por adentrar em outros temas como política, cultura, psicologia, entre outros, mostrando tanto a versatilidade do autor como a abrangência da própria medicina.

As situações que servem de pano de fundo e de ponto de partida para as crônicas são vastas e algumas vezes inusitadas.Numa delas, para falar sobre a emoção que às vezes envolve a profissão médica e as expectativas que giram em torno do médico, ele conta como em certa ocasião teve que encenar o procedimento de ressuscitação de um morto para não ser linchado por uma multidão.Em outra crônica ele conta como deixou de fumar graças a atitude inesperada e desconcertante de um paciente fumante durante uma consulta.As situações, as curiosidades, a riqueza das experiências, a honestidade do autor em compartilhar situações embaraçosas e nada glamourosas e que são inerentes ao exercício da profissão, tornam as crônicas simplesmente deliciosas de serem lidas.

Essa leitura prazerosa sobre um tema que tem tudo para ser monótono se deve ao fato de que além de possuir formação médica, Moacyr Scliar possui o talento literário.Ele dominava as duas artes.É autor de mais de 80 livros, uma obra que abrange vários gêneros: ficção, ensaio, crônica e literatura juvenil.Recebeu prêmios importantes como o Jabuti, entre outros.Teve suas obras publicadas em mais de vinte países.Foi membro da Academia Brasileira de Letras.A união de seu talento como escritor e de seu conhecimento médico tem como resultado um livro abrangente que contribui tanto para o conhecimento médico como para o conhecimento geral do leitor.

Nessa época na qual predominam as técnicas avançadas não podemos esquecer do poder de trasmitir e promover saúde, cura e esclarecimento que a palavra escrita ou falada tem. A medicina precisa se humanizar e focar novamente no ser humano como um todo e não apenas nas doenças que o acometem.Os avanços tecnológicos jamais poderão substituir a importância da empatia, da compaixão, enfim, da importante interação humana entre quem tem a missão de cuidar e quem está doente.Somente assim a medicina será também o território da emoção.