Ciranda de Pedra

Se alguém me perguntasse sobre o que é o livro Ciranda de Pedra, de maneira bem resumida eu diria que é um livro sobre identidade, a busca de uma pessoa em ser alguém que faça sentido no mundo contraditório em que vive e diria ainda que é impossível não se identificar com essa história.

Li Ciranda de Pedra há muitos anos, ainda era adolescente. Me lembro que na época foi um livro que me impactou, mas depois de tanto tempo, não conseguia recordar o motivo desse impacto, não conseguia sequer recordar o final do livro, foi aí que decidi fazer essa releitura.

ciranda de pedraReleituras são interessantes, porque sempre é como se lêssemos algo completamente novo, lemos desde uma perspectiva diferente, porque passamos por diversas experiências e isso influencia em nossa maneira de interpretar o mundo. Tenho certeza de que o que me impactou em Ciranda de Pedra lá na minha leitura de adolescente não foi o que me impactou agora. Mas acredito que, no fundo, a questão da identidade e autoconhecimento ainda seja central.

Ciranda de Pedra conta a história de Virgínia, desde sua infância até o início de sua vida adulta. O livro começa nos contando que Virgínia é filha de pais separados. Sua mãe, Laura, saiu de casa após anos em um casamento frustrado (e em certa medida abusivo), para viver com Daniel, por quem se apaixonou enquanto ainda estava casada. Laura é apresentada como uma mulher com alguns distúrbios psicológicos, minha leitura é de que ela sofria de depressão. Uma depressão que não foi bem cuidada, já que no contexto histórico-social desse livro (possivelmente anos 40, 50, não fica claro), era simplesmente vista como loucura.

Daniel, que foi médico de Laura em algum momento, é quem cuida dela, sem muitas condições financeiras, mas com uma verdadeira devoção. A casa onde vivem os três é simples, ao contrário da casa do pai de Virgínia, que se chama Natércio. Natércio vive com suas duas filhas e de Laura em uma verdadeira mansão, as filhas estudam em bons colégios e recebem tudo o que necessitam. Virgínia passa alguns momentos na casa do pai, mas cada vez que está lá se sente desconfortável com a presença desse homem que praticamente não fala com ela, não a trata como uma filha. Lhe incomoda também as atitudes das irmãs, Otávia e Bruna e seus amigos, Letícia, Afonso e Conrado (seu amor platônico). Enfim, Virgínia não consegue se encaixar nem na casa da mãe, nem na casa do pai, nos dois lugares se sente solitária, por motivos diferentes.

Em certa altura do livro – que não vou entrar em detalhes para não contar a história completa a quem ainda não leu – Virgínia tem que ir morar com seu pai, mas decide que não conseguiria viver ali, então pede para ir a um colégio interno. Seu pedido é atendido e também ali no colégio nossa protagonista não consegue se encaixar. Seus conflitos com a fé em Deus no início lhe causam problemas com as freiras do colégio, depois Virgínia se dá conta que é melhor se dedicar aos estudos e esperar o tempo de sair dali. Anos depois, quando sai do colégio e volta para a casa de Natércio, encontra o mesmo círculo de amigos de suas irmãs, a mesma ciranda, fechada em seus próprios problemas, sem espaço para ela. Porém, Virgínia agora é uma jovem adulta e, aos poucos, vai perceber que talvez a busca por um lugar no mundo não esteja ali, em uma possível aceitação, mas na compreensão e construção de si mesma a partir de sua história, sim, mas também com outras referências e experiências.

Ao terminar esse livro dessa vez me dei conta do porquê não me lembrava de seu final. Acontece que não existe um final, propriamente dito. Existem inúmeros caminhos pelos quais a história de Virgínia pode continuar e isso é algo muito interessante colocado por Lygia Fagundes Telles. Talvez essa busca de Virgínia nunca tenha fim, como é, de fato, na vida real. Estamos sempre à procura de nos encaixarmos, de sermos aceitos, de encontrar nosso lugar no mundo, não é uma história acabada. Por isso eu disse inicialmente que é quase impossível não se identificar com esse livro, já que todos nós enfrentamos essas questões.

Recomendo muito a leitura e releitura de Ciranda de Pedra, além de tudo o que eu disse, é uma história muito bonita e espero ter deixado quem ainda não leu curioso para ler. Me lembrei que existem duas novelas feitas pela Globo baseadas nesse livro. Eu assisti a de 2008 (a primeira versão é bem mais antiga) e, obviamente, é bem diferente do livro, que serviu só como base mesmo. Não sei se é fácil encontrar essa novela aí pela internet, mas se algum dia repetir, talvez valha a pena ver, na época eu gostei.

A versão do livro que eu li é uma bem velhinha, que peguei emprestado da minha irmã e está conservada há muitos, muitos, muitos anos. Mas a Companhia das Letras tem uma edição bem recente, que parece ser ótima. Se chegarem a ler Ciranda de Pedra, voltem aqui para deixar algum comentário sobre o que acharama. Se já leram, comentem se concordam comigo em minhas interpretações, adoro trocar ideias sobre livros.

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Para ter acesso aos links das outras publicações do desafio literário de 2017, clique AQUI.

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4 comentários sobre “Ciranda de Pedra

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