Não sou eu uma mulher?

[…] “Não sou eu uma mulher?” – mote do discurso feito por Sojouner Truth em uma convenção de mulheres em Akron, Ohio, em 1851 – continua sendo uma das mais citadas palavras de ordem do movimento de mulheres do século XIX.

Sozinha, Sojourner Truth salvou o encontro de mulheres de Akron das zombarias disruptivas promovidas por homens hostis ao evento. De todas as mulheres que compareceram à reunião, ela foi a única capaz de responder com agressividade aos argumentos, baseados na supremacia masculina, dos ruidosos agitadores. Com seu inegável carisma e suas poderosas habilidades como oradora, Sojourner Truth derrubou as alegações de que a fraqueza feminina era incompatível com o sufrágio – e fez isso usando uma lógica irrefutável. O líder dos provocadores afirmou que era ridículo que as mulheres desejassem votar, já que não podiam sequer pular uma poça ou embarcar em uma carruagem sem a ajuda de um homem. Com simplicidade persuasiva, Sojourner Truth apontou que ela mesma nunca havia sido ajudada a pular poças de lama ou a subir em carruagens. “Não sou eu uma mulher?” Com uma voz que soava como o eco de um trovão, ela disse: “Olhe para mim! Olhe para o meu braço”, e levantou a manga para revelar a extraordinária força muscular de seu braço. “Arei a terra, plantei, enchi os celeiros, e nenhum homem podia se igualar a mim! Não sou eu uma mulher? Eu podia trabalhar tanto e comer tanto quanto um homem – quando eu conseguia comida – e aguentava o chicote da mesma forma! Não sou eu uma mulher? Dei à luz treze crianças e vi a maioria ser vendida como escrava e, quando chorei meu sofrimento de mãe, ninguém, exceto Jesus, me ouviu! Não sou eu uma mulher?”. (Mulheres, Raça e Classe – Angela Davis – Ed. Boitempo, p. 70-71)

Hoje a publicação é sobre o livro da bell hooks, mas comecei com esse trecho do livro Mulheres, Raça e Classe, da Angela Davis por dois motivos. Primeiro porque ela cita o discurso de Sojourner Truth – mulher negra, ex-escravizada, que lutou para que os direitos das mulheres não se resumissem aos direitos das mulheres brancas. Desse discurso histórico saiu o título do livro de bell hooks. Em segundo lugar, porque esse livro de Angela Davis também foi lido no desafio literário de 2017 e pude encontrar diversos diálogos entre os dois. Tanto bell hooks quanto Angela Davis são intelectuais de peso no debate interseccional entre gênero, raça e classe e, portanto, ler essas duas obras ano passado me ofereceu um processo de aprendizado imenso sobre um tema que me interessa bastante.

Os livros de Angela Davis têm sido publicados pela Boitempo, mas infelizmente, bell hooks ainda não tem recebido a mesma atenção pelas editoras brasileiras, como falei no post anterior. A edição que li de Não sou eu uma mulher? é uma tradução livre, feita para a Plataforma Gueto, em 2014. Embora eu seja imensamente agradecida pela tradução e reconheça a iniciativa como uma forma de tornar acessível esse importante livro de bell hooks (não desmereço de modo algum a importância deste trabalho!), preciso dizer que senti um pouco dificuldade na leitura e espero um dia poder reler uma tradução mais rigorosa do livro, assim como ter acesso a outras obras da escritora. Editoras, por favor, invistam nisso!

Mas, então, sobre o que trata o livro? Assim como Sojourner Truth, bell hooks traz à tona no debate dos direitos da mulher questões que dizem respeito às vivências e opressões pelas quais passam as mulheres negras. Questões que são geralmente ignoradas ou menosprezadas por um sistema machista e racista reproduzido não apenas por homens brancos (que seriam o centro desse sistema), mas também por homens negros e mulheres brancas.

Para discutir esse assunto, bell hooks retoma períodos históricos desde a escravidão, mostrando como mulheres negras escravizadas eram exploradas e oprimidas de todas as formas possíveis. A autora chama atenção, por exemplo, para a violência sexual contra essas mulheres. Ou ainda para o fato de que elas tinham uma carga de trabalho muito mais pesada que dos homens, pois além de serem forçadas a trabalhar nas lavouras como eles, eram obrigadas a trabalhar nos serviços domésticos, ou na criação de animais, por exemplo. hooks discute os diversos estereótipos sobre a mulher negra que surgiram na época da escravidão e que prevalecem no imaginário das pessoas até hoje – como a mulher negra forte (e, portanto, que suporta dores físicas inimagináveis), ou a mulher fácil, ou a grande matriarca da família (em um sistema patriarcal, o que não faz nenhum sentido). A autora demonstra como esses e outros estereótipos servem ainda hoje como opressão à mulher negra.

Outro ponto importante discutido nesse livro é sobre o movimento feminista. Também nesse caso, bell hooks parte de dados históricos, como o movimento sufragista para discutir a exclusão da mulher negra das pautas do movimento feminista até os dias atuais. Para hooks, é impossível separar gênero e raça e, portanto, o movimento feminista só poderá ser bem sucedido quando encarar seu próprio racismo e trabalhar para eliminá-lo.

Obviamente, estou resumindo de forma muito simplória o que a autora discute nesse livro. Ela aborda esses temas oferecendo dados, fazendo uma retrospectiva histórica e argumentando com grande riqueza de detalhes. Ao mesmo tempo, é possível perceber o tom militante que ela coloca em suas palavras. Como mulher negra que é, hooks consegue extrapolar o exercício intelectual e vemos em seu texto a força da crítica e da denúncia. Mas também encontramos no livro um tom de esperança, de que por meio da educação esse cenário racista e sexista se transforme.

Não sou eu uma mulher? é uma leitura obrigatória para quem quer aprender mais sobre os direitos das mulheres. Considero a perspectiva interseccional extremamente importante e acredito que bell hooks é uma das principais vozes para nos ensinar um pouco mais sobre esse assunto.

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A edição que li está disponível em PDF, AQUI.

Para acessar os links dos outros livros nesse desafio, clique AQUI.

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