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O olhar na adolescência

Não é mistério para ninguém que vivemos a era digital. Mesmo que em alguns casos a limitação geográfica e o poder aquisitivo impeça uma parcela da população o acesso a equipamentos rebuscados ou até mesmo a smartphones. De modo geral a popularização dos meios é um facilitador para provocar novas experiências com diferentes dispositivos. Enquanto nós, que crescemos em um mundo analógico, nos adaptamos na medida que novos lançamentos são disponibilizados no mercado, já existe toda uma geração que nasceu e aprendeu de forma orgânica a interagir com essas ferramentas de comunicação.

E é aí que se encaixa o olhar, um diferencial que todos temos, independente de classe social ou poder aquisitivo. Nossa primeira câmera fotográfica é acessível, ajusta o foco, possui regulador de contraste, incisão de luz e profundidade de campo de forma automática e vem inclusa no pacote ao nascermos. Algumas com defeito de fábrica, confesso, mas interessantes para se pensar em como nos relacionamos com o meio. Para quem acha, por exemplo, que cegos não estão inclusos no universo fotográfico, sugiro assistir ao filme de João Jardim, Janela da Alma, ou ao documentário da HBO, Luz Escura – A arte dos fotógrafos cegos, ambos disponíveis no youtube.

O nosso primeiro mecanismo de registro é o olho… o frame é apenas uma decisão que se tomou para cortar uma cena, contar uma historia.  

Fotografia é uma relação íntima com o espaço em que está inserido. Neste contexto, treinar o olhar da criança e do adolescente para a fotografia é permitir se aprofundar em si com consciência ao selecionar fatos e refletir sobre eles. O registro em foto não é mero espelho. Diz muito sobre quem fotografou, seu contexto e como ele lida com o seu universo particular. Uma selfie de um adolescente no snapchat guarda uma impressão digital escondida de sua personalidade e sua interação com seus contatos, família e mundo.

Fotos: Saída de campo para Morretes do 1º Workshop de Fotografia para Adolescentes em 2015.

Trabalhar essa linguagem com o adolescente é um desafio de gerações, no que se compete como nós nos enxergamos naquela fase e como eles estão agora trabalhando suas ansiedades. É desnudar-se de conceitos, uma troca constante onde a sensibilidade é a força motriz no ato do registro, algo que evolui em cada fase da vida. Estive conversando com Paty Zupo, professora de fotografia em Curitiba que se especializou em criar esse diálogo com os adolescentes. Segundo ela (e estou de comum acordo), o primeiro passo é entender como se observa o meio em que se está inserido e entender como a cena pode ser uma história a ser contada. “Eu gosto de trabalhar elaborando o que está por trás da cena, o olhar daquele que a observa e entender como aquela informação é interpretada para depois ir pro equipamento. A câmera é um recurso do olhar“, enfatiza.

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A profissional ministra aulas de fotografia no currículo regular de escolas da cidade, além de fazer parte da equipe da Portfólio, escola, casa, estúdio, instituto ou melhor, como eles mesmos mencionam em sua página de facebook: um lar para amantes das artes e registros. Zupo montou um workshop de fotografia com adolescentes para realizar saídas de campo fora do contexto da cidade em que se vive. A terceira edição contará durante a viagem com o auxílio de outro integrante da escola, Gabriel Fiori, e irão trabalhar juntos na construção de imagem do grupo com os equipamentos que cada um dos alunos possui, além da fotografia móvel, com uso de smartphones.

Fotos: Saída de campo para Morretes do 1º Workshop de Fotografia para Adolescentes em 2015.

A ideia é passar o dia junto, confraternizando. A viagem possibilita apurar o olhar para o novo, mas também interpretar o que se quer da cena“, comenta Zupo. O projeto, faz parte do currículo da Portfólio e sua filosofia de imersão da prática fotográfica num contexto cultural. No próximo sábado, um grupo de dez alunos está com viagem marcada para o litoral paranaense. O destino é a cidade de Antonina, passando pela charmosa Estrada da Graciosa. A proposta da saída de campo não é o mero registro do passeio e sim uma imersão, onde os alunos poderão explorar e treinar o olhar para, enfim, realizar seu clique.

Fotos: Colagem da exposição resultado da saída de campo de Morretes em 2015 durante o Mini-festival… Duvida? da Escola Portfólio.

O workshop será divido em dois momentos. O primeiro, ainda em Curitiba, realizado no dia 02/06, para repassar informações sobre técnicas, tipos de equipamentos, referencial bibliográfico e aproximar os alunos da temática. No dia seguinte, às 7h30 da manhã, o grupo parte para a proposta prática, com foco no registro da paisagem, retrato e atividades urbanas:  o que acontece no local e qual a cultura daqueles que ali habitam. Zupo vem ainda estudado a linguagem do palhaço e insere o contexto dos jogos de cena para a construção do olhar no ato da captura.

A evolução nesta construção do olhar é algo moroso, requer dedicação de cada um, seja professor ou aluno. Como todo o diálogo deve ser, a troca entre aquele que repassa ensinamentos e aquele que os absorve é componente central para a construção do saber. É preciso se acostumar a ir em diferentes áreas, conversar com outras linguagens artísticas, para se entender o mundo em que se está e atuar sobre ele. A fotografia é registro, mas também convivência. Enxergar-se enquanto narrador e personagem central de sua história é parte do conceito de se vivenciar o momento decisivo. Uma forma de expressão, onde a imagem diz tanto quanto qualquer frase proferida.

*Foto de capa: Yoko Teles. 

Autor:

Cerratense perdida na neblina curitibana, jornalista por falta de direcionamento de carreira e fotógrafa sem câmera.

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