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Ignácio Rangel

Ignácio Rangel sempre teve sua posição política atrelada à sua carreira na economia. Na ausência de um diploma formal, o carimbo de economista veio quando foi fichado pela polícia política do Estado Novo. Na ficha do detento, constava pela primeira vez “ocupação: economista”. O tempo de prisão possibilitou o estudo aprofundado do marxismo.

O economista Ignácio Rangel é estudado hoje como estruturalista. Integrante da escola junto com economistas famosos no país, como por exemplo Maria da Conceição Tavares e Celso Furtado, o maranhense nascido em Maranhense, 20 de fevereiro de 1914, buscou explicações para o subdesenvolvimento de países da América Latina.

 

Industrialização

Rangel é conhecido como um dos mais importantes analistas econômicos do país. A figura de Ignácio Rangel passa por vários períodos políticos do Brasil. O maranhense, que começou sua carreira profissional como advogado, participou da assessoria econômica do governo Vargas, e colaborou para a criação da Petrobras e Eletrobras. Na década de 1950, integrou a comissão que elaborou o Plano de Metas do governo de Juscelino Kubitschek.

Foi também um entusiasta da industrialização do país.. Rangel colaborou com universidades, como a Unicamp e a UFMG. Mas a importância do economista para o pensamento brasileiro ganha destaque com vários livros e artigos em periódicos e jornais. Um desses periódicos foi justamente a Revista de Economia Política, que ia contra a visão dominante da economia. A área de consolidação do pensamento de Ignácio Rangel é na “Economia Política”.

Na trajetória de Rangel há espaço para a coexistência de correntes econômicas originalmente discordantes. Usava no seu trabalho o monetarismo e o keynesianismo, duas vertentes do pensamento econômico que raramente se tocam. Além disso, dialoga, no seu trabalho, com ideias marxistas e de Schumpeter (onde a destruição criativa é vista como forma de salvar o capitalismo).

Sendo um homem e pensador ligado ao conflito de ideias, sempre esteve ligado à esquerda, mas foi de certa forma rejeitado por esta quando argumentava, entre as décadas de 1950 e 1960, que não havia condições objetivas para a realização de uma reforma agrária no Brasil. A questão agrária, na época, era indispensável para as personalidades de esquerda. O argumento de Rangel era que a reforma agrária inviabilizaria a retomada do crescimento econômico do país. Nos anos de 1970, depois do ciclo crescimento econômico, Rangel passou a defender a reforma agrária como medida possível para a diminuição da desigualdade social, mas continuou a ser alvo da incompreensão da esquerda.

 

Inflação brasileira

Se depois de sua morte, aos 80 anos, no Rio de Janeiro, Ignácio Rangel é visto como integrante do estruturalismo, em vida não poupou a corrente de pensamento econômico na sua análise das causas da inflação brasileira. No seu livro A inflação brasileira, publicado em 1963, pouco tempo antes do golpe militar, Rangel ironizava os estruturalistas, que na sua opinião, não entendiam a relação da alta do preço dos alimentos com a inflexibilidade da oferta agrícola. De modo muito geral, para Ignácio Rangel, a inflação serve como mecanismo de sustentação do nível de crescimento da economia, o crescimento econômico só é possível com um nível mínimo de demanda. O que acaba justificando a existência de uma inflação controlada.

Sua personalidade como economista que não se ajustava ou não se acostumava aos seus próprios pensamentos, fez de Ignácio Rangel um intelectual difícil de ser compreendido. Porém um produto de seu tempo, sempre controverso. Para André Lara Resende, economista e ex-presidente do BNDES, Ignácio Rangel pode parecer confuso para quem estuda suas ações e textos: “Ele tem todas as características de um pensador solitário: a originalidade, a criatividade e as deficiências de quem não está inserido num contexto de referências”.

Segundo Maria da Conceição Tavares, no obituário de Ignácio Rangel publicado pela Folha em 1994,  o economista “foi o grande patrono dos chamados economistas de esquerda”. Ignácio Rangel é visto por biógrafos e pesquisadores como “patinho feio” entre os brilhantes economistas que tentaram decifrar a desigualdade social e econômica do Brasil. Rangel ora por força dos acontecimentos históricos e políticos, ora por acreditar que não era imprescindível adotar um posicionamento à esquerda ou à direita, foi ignorado por muitos teóricos e planejadores da economia. Porém, como os grandes pensadores, a obra supera o autor e “Inflação Brasileira” continua sendo um marco nos estudos de economia na academia brasileira.

O assunto é complexo e cheio de detalhes. Para conhecer um pouco mais: https://doi.org/10.1590/S0101-31572014000400003

 

Luciana
Jornalista e editora, mestre em rádio e televisão.

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