Publicado em Literatura, Literatura Estrangeira

A Morte do Inimigo

A_MORTE_DO_INIMIGO_1357754428PHans Keilson foi um romancista alemão que só passou a ser reconhecido como escritor poucos anos antes de morrer, em 2011, aos 102 anos. Porém, quando o descobriram, os críticos se depararam com verdadeiras obras-primas. Entre elas está o romance A morte do inimigo (editora Companhia das Letras, 256 páginas). Como leitora, sou capaz de arriscar que na literatura contemporânea há poucos romances tão bem elaborados e tão genialmente pensados como esse.

Um homem, cujo nome não é citado em momento algum do livro, descreve suas experiências da infância, juventude e vida adulta e de como toda sua vida e de seu povo gira em torno de um inimigo, nomeado como “B.” O maior problema é que esse protagonista não aceita pensar em seu inimigo da mesma maneira que pensam os outros de seu povo. Ele quer entender o porquê dessa inimizade e cultivá-la tanto quanto se cultiva uma amizade. O medo de ser descoberto faz com que ele entregue o manuscrito para um advogado, que o enterra e, somente após o fim da Segunda Guerra Mundial, decide entregar o texto a um amigo, para que este opine sobre o que se deve fazer com aquilo.

A primeira coisa que o leitor precisa fazer para tentar compreender a obra é identificar qual é o povo a que pertence o narrador e quem é o seu inimigo. O narrador jamais cita seus nomes, por questão de segurança. Contudo, esse enigma não é muito difícil de ser decifrado. O próprio advogado e seu amigo confessam, no final da história, que o texto deixa muito claro a quem o protagonista se refere. Ele nasce na Alemanha. Aos dez anos de idade, descobre que seu povo possui um inimigo, um homem muito carismático que ganha cada vez mais adeptos, convencendo-os, entre outras coisas, de que o povo em questão é de raça inferior e que, se continuar vivendo, será como uma praga para a humanidade. Assim, esse homem planta nos alemães o ódio contra esse povo que, por sua vez, vive na expectativa de o inimigo cumprir sua promessa de o exterminar.

Está claro que o protagonista é judeu e esse povo perseguido é o povo judeu. O inimigo, muito provavelmente, é Hitler, ou a personificação de sua política. A segunda hipótese é a que mais me agrada porque no final da história, ao falar de um soldado nazista morto, o advogado o chama de “o inimigo”.

O antissemitismo já existia antes da chegada dessa política intolerante. Os judeus sempre foram excluídos das comunidades europeias, por isso pouco assimilaram das outras culturas e puderam preservar sua identidade. Eram considerados os assassinos de Deus. Depois passaram a ser criticados por qualquer motivo, desde porque praticavam o “pecado” da usura (emprestavam dinheiro e recebiam os juros) até porque tomavam banho todos os dias, por obediência à Torá. Muitos mitos foram criados em torno dos judeus, e assim o ódio contra eles foi crescendo. Eles eram obrigados a viver em guetos, não possuíam a cidadania do país onde viviam e onde nasceram. Seus direitos eram muito limitados, isso quando eles tinham algum direito. No século XIX, no período do Iluminismo, do racionalismo europeu, algumas poucas mudanças começaram a ocorrer e, ainda com muitas limitações, os judeus adquiriram cidadania em alguns países. Quando Hitler começou seu discurso racista, as pessoas não tiveram muita dificuldade em assimilá-lo porque os judeus não contavam com a simpatia de muitos.

O narrador relata diversas situações em que sentiu na pele a exclusão antissemita. Em um momento da história ele questiona por que toda essa situação é necessária. Afinal, o judeu possui a mesma nacionalidade que os outros, fala a mesma língua que os outros, segue uma rotina parecida com a dos outros. No entanto, o judeu é rejeitado, como se fosse um estrangeiro. O judeu não tem lugar. Se nasce na Alemanha, na Polônia ou na Áustria, mas é judeu, então ele não é alemão, nem polonês, nem austríaco, e sim um judeu imundo que precisa ser exterminado. Amós Oz trata de um assunto muito semelhante em seu romance De amor e trevas. Ali ele fala do judeu que conseguiu sair da Europa e chegar até a Palestina justamente nesse período de maior hostilidade, e de como lá, na Palestina, tampouco foram bem recebidos e foram considerados invasores. Amós Oz conta que os europeus gritavam: “Judeu, vá para a Palestina!”, e na Palestina eles ouviam os gritos: “Judeu, saia da Palestina!”

Apesar de toda essa perseguição, o que chama a atenção no romance é o fato de o protagonista tentar se identificar todo o tempo com seu inimigo. O homem realmente possui carisma e é aclamado por multidões, especialmente quando chega à presidência. Ele o admira justamente por isso e, ao mesmo tempo, o odeia. Ele espera pela morte de seu inimigo, mas não é capaz de matá-lo nem deseja que o façam, pois o interessante é exatamente a existência dele. Sua vida só faz sentido com a presença do inimigo. Esta é uma figura necessária. O narrador afirma que se identifica com o inimigo, já que os dois possuem muitas coisas em comum. As características comuns não são citadas, mas é possível identificar algumas no decorrer da leitura. A começar pela questão da nacionalidade, já tratada acima. Ambos nasceram no mesmo país e falam a mesma língua. Outra semelhança está em que cada rival se sente superior em relação ao outro, chega mesmo a agradecer a Deus por não ser como o outro. Depois, outra maneira de identificação seria pelo nacionalismo. Os judeus se preservaram como um povo diferente, separado (mesmo que isso tenha acontecido por causa da exclusão social que sofreram). No período que antecede à Segunda Guerra Mundial, enquanto muitos sofriam na Europa, outros conseguiam chegar à região onde hoje é Israel e já havia discursos sobre a possibilidade de criação de um Estado judeu. Os imigrantes que chegavam à Palestina eram nacionalistas em sua maioria, ressuscitaram a língua hebraica e começaram o movimento que deu origem ao Estado de Israel em 1948. Por isso, mesmo que com objetivos diferentes, tanto o judeu quanto seu inimigo tinham em comum a disposição de lutar pelo bem de seu povo.

Após a identificação, o protagonista tenta compreender as razões do inimigo. Sendo nacionalista, se B. acredita que os judeus são uma ameaça ao seu país, nada mais justificado que desejar o extermínio desse povo. B. tem medo dos males que esse povo pode causar, por isso decide ameaçá-lo. Essa é uma lógica perfeitamente clara na mente do protagonista, mas é rejeitada pelos demais judeus. O grande problema é que o narrador acredita que tudo não passa de discursos e, por mais que seus amigos o alertem para o fato de que o inimigo irá um dia colocar seu ódio em prática, ele não acredita. Só se dá conta quando as ameaças são realmente levadas a cabo, quando se inicia o extermínio, o famoso e trágico Holocausto.

O final surpreende porque faz o leitor questionar quanto à veracidade das informações presentes no manuscrito. Até que ponto o narrador falou do que é real e até onde fantasiou? Realmente houve a tentativa de compreensão do inimigo ou esse pensamento só surgiu posteriormente? Os pontos de interrogação inundam a cabeça de nós leitores, porém tornam a obra ainda mais interessante. Além de tudo, a leitura flui com muita facilidade, os capítulos são curtos. O romance é capaz de prender a atenção de qualquer leitor, inclusive daquele que não se interessa muito pela história do povo judeu, ou pela História em geral. A morte do inimigo é um romance de verdade e, assim como conseguiu fazer em outros países, precisa ganhar seu espaço nas prateleiras dos leitores brasileiros.

 

Autor:

Uma jovem que estuda, trabalha e respira literatura. E sempre que possível está aqui para dar dicas de livros via internet.

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