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Clássico do Mês – Dom Quixote

30375100Livros, livros, livros. Somos apaixonados por livros. Cada amante dos livros tem aquele tipo de livro preferido: romance, ficção, policial, biografias, aventura,  etc.  Eles nos fazem chorar, rir, as vezes até xingar uma das personagens que odiamos (confesso que achei a Emma, personagem de Jane Austen insuportável), e a maioria de nós sabe que muitas das histórias que lemos são inventadas, criação de mentes cuja imaginação voa livre para qualquer lugar, buscando expressar em palavras situações e sensações que todos nós vivemos em algum momento da vida (ou iremos viver).

Existe até mesmo livros que falam de livros, como Coração de Tinta (de Cornélia Funke, ed Companhia das Letras), sobre como o livro foi escrito e do que fala (os famosos livros de crítica literária) e os que inspiram outros livros (o comentário atual é sobre a obra As Aventuras de PI ser baseada na obra do brasileiro Moacyr Scliar, Max e os Felinos). Em resumo, livros geram outros livros que inspiram outros livros.

Foi inspirado em livros que nasceu Dom Quixote de La Mancha (com nova tradução da Penguin-Companhia), o autor, Miguel de Cervantes, tem a ideia de criar uma história onde a leitura excessiva pode enlouquecer uma pessoa. OS livros de aventuras de cavaleiros andantes, com diversas lutas, guerras e um amor jamais esquecido, eram famosos. Quando Cervantes começou a escrever Dom Quixote, esse tema estava em declínio, e foi aí que o autor teve a grande ideia de utiliza-los em sua obra.

Dom Quixote é um fidalgo que reside na região da Mancha (região central da Espanha) e já está em idade avançada. Ele ocupa seus dias lendo histórias de cavalaria e são tantas horas que chegou a deixar de lado a administração de suas terras. E essas longas e diárias leituras acabam deixando este personagem enlouquecido, ao ponto de acreditar ser um cavaleiro andante, assim como as personagens dos livros que possui.

E foi assim que Dom Quixote parte em busca de aventuras (ou seria desventuras?!?!?). Junto com Sancho Pancha, que se torna seu escudeiro após promessa de se tornar dono de uma ilha ou cidade. Cada situação vivida pela trupe é criada a partir dos delírios de Dom Quixote, que imagina e vê o que deseja, não a realidade.

Não se pode negar que Dom Quixote é louco. Sancho por sua vez percebe os erros do amo, mas se apega fielmente em seu sonho de riqueza que não contradiz seu amo (na maioria das vezes chega a mencionar a Dom Quixote a situação real que acontece, mas sempre mantém a postura de senhor/criado e se resigna a obedecer).

A história é divertidíssima. É impossível não rir em nenhum capítulo do livro. As situações que Dom Quixote e Sancho se metem são surreais. Quixote tem resposta para cada situação, tanto para entrar em uma luta de carneiros, quanto por sair perdendo das lutas. Em alguns momentos me sentia triste por ver os dois apanharem tanto, principalmente ler os delírios de Dom Quixote. Mas tenho que admitir, Cervantes foi um gênio ao escrever essa obra, a ideia do livro e todas as situações descritas no livro não são ideias que qualquer pessoa poderia ser, e colocar tudo em uma só obra é prova de que esse autor era um poço bem fundo de ideias.

Os dois volumes de Dom Quixote

A edição lançada pela Penguin-Companhia vem em dois volumes, com a obra completa. Cada um dos livros possui início e fim, portanto não se assuste ao ver o tamanho da caixa e o numero de paginas completo.

Quando Cervantes escreveu Dom Quixote, ele já estava com mais de 50 anos. Escreveu uma obra completa, com desfecho para seus personagens.  Apesar do sucesso da obra, Cervantes só veio a publicar o segundo volume 10 anos depois. Não encontrei as razões para esse período longe em minhas pesquisas, talvez para acabar com as vendas de um livro apócrifo (o autor Alonso Fernandez Avellaneda, decidiu escrever a continuação da obra, que tantos desejavam).

Ainda assim, o segundo volume não fica para trás do primeiro volume. As qualidades encontradas no primeiro, teremos também no segundo e, por estarem separados (assim como o autor os fez) facilita muito ao leitor que terá um livro mais fácil de manusear. Praticidade para os adeptos às leituras no metrô, ônibus e naquela horinha que sobra do almoço.

Sobre a Tradução

Todos que leram Dom Quixote afirmam que é uma leitura difícil. A narrativa, palavras que já caíram em desuso ao longo dos anos fazem com que o leitor tenha dificuldade na leitura. Muitos desistem, não entendem nada ou se cansam das trocas constantes entre livro e dicionário. É uma obra difícil de entender, que requer muita paciência e força de vontade.

Li Dom Quixote pela primeira vez há cerca de cinco anos (a primeira parte somente). Gostei muito da história, mas demorei muito, muito mesmo para terminar. Me lembro de muitas vezes reler a mesma página três vezes, pois não entendia o que o autor queria dizer. Alguns dias o avanço era muito lento e cansativo. A história valeu muito a pena, mas o tempo gasto é grande e sou bem honesta em afirmar: se tivesse tentado ler na adolescência provavelmente teria desistido, não estava preparada para ler Cervantes. Para mim, ler na fase adulta foi a melhor decisão que tomei, consegui ler o livro, entender e então rir muito dos momentos de loucura de Dom Quixote e Sancho Pança.

E então três meses atrás, leio um artigo no Blog da Companhia das Letras sobre uma nova edição do livro com uma nova proposta: uma tradução feita para que a obra seja mais clara, tornando o livro de fácil entendimento e mais convidativo. Quando soube dessa notícia fiquei muito feliz, me interessei em reler a obra o mais rápido possível. Quem sabe entender melhor o livro (afinal, sempre existe a possibilidade de má interpretação de parte de obras com esse nível de dificuldade de interpretação).

Comecei a ler o livro no início deste ano e logo no primeiro capitulo senti mais tranquilidade ao ler. As palavras eram mais claras e as notas do autor são de uma utilidade imensurável para entender todo o contexto. Os leitores assíduos já sabem que sempre elogio às notas sempre, mas a importância das mesmas são imprescindíveis para que o leitor possa extrair o sumo de algumas obras. No caso de Dom Quixote da Penguin-Companhia, elas se baseiam mais em esclarecer os lugares, autores mencionados na obra, cheguei a encontrar algumas poucas sobre a tradução de determinada sentença, o que é normal devido à complexidade da tradução.

Em alguns momentos tive o receio de que a minha facilidade na leitura seria pelo fato de já ter lido a obra, mas isso caiu por terra na segunda parte do livro, que era inédito para mim. Terminei o livro muito satisfeita com a história e o tradutor, Ernani Ssó, que ousou em fazer uma tradução dessa maneira e o parabenizo, não é fácil fazer uma tradução sem extrair alguns detalhes da obra, (afinal, existem palavras e sentenças impossíveis de se traduzir em qualquer idioma, o Brasil tem saudade como exemplo).

Outro ponto que adorei foi a edição. As duas edições vêm juntas em uma caixinha linda. Os desenhos são belíssimos e o papel usado de boa qualidade (com um tom levemente amarelo, que facilita a leitura) e, o mais interessante: o preço. R$ 79,00. Vale a pena comprar para dar de presente ou “se dar de presente”.

Luciana
Jornalista e editora, mestre em rádio e televisão.

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