Publicado em Literatura, Literatura Estrangeira

De Amor e Trevas

de amor e trevasTomei conhecimento de Amós Oz por meio de seu livro De repente, nas profundezas do bosque. Fiquei encantadíssima. Logo em seguida recebi a informação de que ele estaria em São Paulo, no SESC Pinheiros e me aventurei a ir sozinha. Levei meu exemplar e entrei na fila para autógrafos. Quando chegou minha vez, abri o livro e indiquei onde ele deveria assinar. Ao recebê-lo de volta, me atrevi a agradecer em hebraico “todah rabah” e ele simplesmente sorriu. Quero dizer, ele sorriu com os lábios de forma simpática, mas especialmente Amós Oz sorriu com olhos. Naquele momento, tive a impressão de que aqueles olhos já haviam contemplado muita coisa. Era um olhar claro, enrugado, vivo e experiente. Imaginei que o dono de olhos como aqueles deveria ter bastante coisa para contar. Por isso procurei conhecer outras obras desse escritor israelense. Até agora todos os romances que li mexeram muito comigo. No entanto, De Amor e Trevas (Companhia das Letras, 617 páginas), me deixou realmente impressionada.

Em primeiro lugar, preciso justificar por que utilizo o termo “romance” ao me referir ao livro. Muitos diriam que se trata de uma autobiografia, já que Amós Oz escreve sobre sua infância em Jerusalém na década de 1940, e conta casos envolvendo seus pais, parentes e amigos da família. Outras pessoas podem afirmar que o livro se encaixa naquilo a que chamam de “memórias literárias”, em que o autor procura envolver fatos reais em elementos ficcionais, isto é, ele conta a verdade em parte, sem compromisso. Quando comecei a leitura, pensei imediatamente: Amós está fazendo memórias literárias. Porém, foi só avançar um pouquinho na leitura para me dar conta de que eu não devia me preocupar em saber o que era real e o que era inventado em toda aquela história. Não cabe a nós fazer especulações para descobrir o que aconteceu com quem e quando. O próprio escritor alerta seus leitores quanto a esse erro e dedica quase seis páginas de seu livro para convencer o leitor a ler sua obra como um romance. A pessoa que lê procurando a fofoca é chamada de mau leitor, leitor preguiçoso, leitor sociólogo, leitor fofoqueiro, de acordo com o próprio Amós. Assim, decidi atribuir à obra em questão o título de romance e optei, como leitora, a me relacionar com o texto e a extrair informações relevantes para mim e para a História, além de me deliciar com a história de Amós Klausner e sua família, como se estivesse lendo qualquer obra de ficção.

Os pais de Amós Klausner imigraram para Israel no período do Holocausto. Nessa época (e até 1948) Israel estava sob domínio britânico. A família vivia com certas limitações em um apartamento pequeno em Jerusalém. O pai de Amós era um erudito, sabia ler em dezessete línguas e sonhava se tornar um professor na Universidade Hebraica de Jerusalém. Este sonho ele nunca conseguiu realizar porque seu tio, Yossef Klausner, era um catedrático na mesma universidade e, para que as pessoas não dissessem que ele beneficiava seus conhecidos, evitava ajudar o sobrinho, ou pior, fazia de tudo para impedir seu sobrinho de se tornar um professor ali. Tanto a mãe quanto o pai de Amós eram apaixonados por livros. Faltava muita coisa no apartamento da família, mas o que mais havia ali eram livros, dispostos em várias estantes que ficavam em um corredor apertado. Assim, o menino cresceu num ambiente repleto de literatura e adquiriu o sonho de se tornar um livro. Veja bem, seu sonho não era ser um escritor, mas um livro porque, segundo ele, os livros prevalecem depois de muitas e muitas gerações. (Eu iria comentar que, de certa maneira, Amós realizou seu sonho pois cenas de sua vida estão presentes em diversos de seus romances, mas eu cairia no erro da especulação, então prefiro deixar essa observação entre parênteses…). Outra coisa interessante aqui é que o narrador mostra um pouco como se deu a evolução do hebraico moderno. As pessoas que vinham da Diáspora, chegavam em Israel falando outra língua (especialmente russo, polonês e alemão ou iídiche). Por isso, a grande maioria não tinha o hebraico como língua nativa e a aprenderam devido principalmente ao senso de nacionalidade. Os mais velhos dessa época (década de 1940, como já informei acima) falavam o hebraico clássico, literário, e com bastante dificuldade. Os nativos em Israel, como era o caso de Amós, aprendiam com muito mais facilidade o hebraico coloquial, o que começava a ser falado nas ruas. Essa renovação linguística é muito bem retratada na obra.

O autor narra também sobre diversas histórias envolvendo seus tios, primos, avós, amigos da família… Há muitos episódios divertidos, outros trágicos, ainda outros tragicômicos. Ele conta sobre as escolas onde estudou e quais critérios seus pais usaram para decidirem onde o matriculariam. Ele fala das saidinhas noturnas de seu pai, da doença de sua mãe e de que maneira ela decidiu por fim à sua vida quando Amós tinha apenas 12 anos de idade (já no começo da década de 1950). Ele conta sobre o novo casamento de seu pai e de sua decisão de, aos 14 anos, sair de casa e ir viver num kibbutz, quando decide mudar seu sobrenome e se torna Amós Oz (“Oz”, em hebraico, significa “coragem”).

Muitos outros elementos da História de Israel e do povo judeu aparecem no romance. Amós procura mostrar sua visão de criança diante do domínio britânico, de como eles controlavam a entrada de judeus na Palestina, permitindo que muitos ficassem sem saída e fossem levados aos campos de concentração. Ele trata do antissemitismo, mostrando como era difícil para uma criança compreender o porquê de tanto ódio. Ele inclusive tenta usar o bom humor ao dizer que o judeu não tinha lugar. Se estava na Europa, as pessoas diziam: “Judeu, vá para a Palestina!”. Eles foram para a Palestina e lá tiveram que ouvir: “Judeu, saia da Palestina!” Ele também narra a Guerra de Independência, do processo de criação do Estado israelense e de como em sua casa seus pais e amigos esperavam boas notícias vindas da Assembleia-Geral da ONU, que iria decidir sobre a partilha da Palestina e a formação do Estado de Israel. Um dos melhores trechos do romance, em minha opinião, foi a reunião que a vizinhança fez para acompanhar pelo único rádio que havia na rua a transmissão ao vivo da Assembleia-Geral e a festa que fizeram quando foi anunciado o veredicto: mais de dois terços dos países que votaram decidiram a favor da criação do Estado. Essa Assembleia aconteceu em 29 de novembro de 1947. Em 15 de maio de 1948 surgiu oficialmente o Estado de Israel e o mandato britânico teve fim depois de 30 anos.

De amor e trevas é um romance inteligente, interessantíssimo, ele prende a atenção do leitor que se diverte junto com Amós, mas que também sofre, se identifica com suas fraquezas e compartilha de suas dúvidas . Amós consegue escrever de maneira muito sincera e sensível, algo que não é tão fácil de se ver na literatura contemporânea. É por isso que recomendo fortemente o romance, desejando que todas as pessoas possam, por meio dessa leitura, contemplar (sem especular) parte do que aqueles olhos tão penetrantes e conhecedores já contemplaram em mais de 70 anos de existência.

Título: De amor e Trevas
Autor: Amós Oz
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2005
Número de páginas: 617

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