Publicado em Literatura, Literatura Estrangeira

A Arte de Viajar

Ainda não conheci alguém que não goste de viajar. A aventura de ir para um lugar desconhecido, a ansiedade em voltar a um lugar que se tenha gostado muito, a oportunidade de descansar e sair da rotina… Isso agrada, talvez, a quase todas as pessoas. Mas, de modo geral, planejar uma viagem e realizá-la não são ações que as levam a uma reflexão sobre o que se está fazendo. Ficaríamos impressionados, porém, em ver como viajar pode ser muito mais que uma experiência divertida, ou uma obrigação de trabalho. Inclusive as viagens curtas e para perto podem nos trazer questões e respostas sobre nossas motivações em viajar, o que estamos procurando, em que a viagem pode resultar até mesmo para a vida, como um todo. O livro “A Arte de Viajar”, do filósofo Alain de Botton, publicado pela Editora Intrínseca, traz uma reflexão nesse sentido, de desvendar as questões mais profundas por trás do ato de viajar.

As experiências de viagem do autor são o ponto de partida para suas reflexões, mas elas não vêm sozinhas. À discussão Alain de Botton inclui as viagens e pensamentos de artistas, filósofos e escritores, como Charles Baudelaire, Edward Hopper, Gustave Flaubert, Vicent Van Gogh, entre outros. Botton revela como esses escritores e artistas de algum modo influenciaram suas viagens (antes, durante ou depois de realizadas), fazendo com que ele pudesse encarar suas experiências por diferentes pontos de vista. Para isso, segue uma trajetória no livro, que vai da expectativa antes da viagem até o retorno. Em cada capítulo, o autor apresenta um lugar em que esteve, tendo como guia um ou dois desses grandes nomes citados.

A começar pela partida, Botton fala em como, por exemplo, a simples imagem de uma linda praia e um dia ensolarado, em um catálogo turístico, pode despertar a vontade de realmente estarmos lá. Foi a reação dele ao ver a foto de uma praia em Barbados durante um dia chuvoso e cinza em Londres. Mas a expectativa da viagem e a imagem que temos do destino nem sempre irá corresponder à viagem em si. É para isso que Botton chama a atenção nessa primeira parte. Não é por estarmos em um lugar paradisíaco que vamos necessariamente esquecer nossos problemas cotidianos, ou não vamos encontrar incômodos e outros problemas, porque o lugar nunca será tão perfeito quanto a imagem. Ainda sobre a partida, o autor fala sobre os destinos de viagem em um capítulo que, para mim, é um dos mais bonitos e interessantes do livro. Nele Botton chama a atenção para os lugares de passagem e espera: estradas, ferrovias, postos de gasolina, cafés, aeroportos, rodoviárias. Tendo como guias Baudelaire e Edward Hopper, mostra como esses lugares podem ser extremamente familiares, justamente por serem tão comuns.

Passando à ideia de estar em seu destino, Botton conta sua viagem a Amsterdã tendo como guia Flaubert. Assim como Flaubert ficou encantado pelo exotismo do Egito em relação à França, seu país de origem, Botton ficou em relação a Amsterdã. Ele percebe o exotismo como uma motivação da viagem, pois segundo ele, procuramos (e encontramos) no exótico, aquilo que sentimos falta em nosso próprio lugar, ou em nós. Outra motivação seria a curiosidade. Não apenas aquela em querer conhecer os pontos turísticos que os guias recomendam, mas principalmente uma curiosidade subjetiva, aquela que Nietzche diria ser uma curiosidade para conhecer a vida. Essa não vai depender dos lugares descritos nos guias e mapas turísticos, mas do que o viajante encontrar em seu caminho durante a viagem e até mesmo de seu “estado de espírito”.

Em outra passagem do livro que considero belíssima e bastante intrigante, Botton fala sobre a paisagem. Trazendo, em primeiro lugar, a distinção entre campo e cidade como destinos de viagem, o autor argumenta, tendo como guia William Wordsworth, que o contato com a natureza seria capaz de amenizar, ou até “corrigir” as tristezas e ansiedades decorrentes da vida nas grandes cidades. Diante de paisagens que trazem o sentimento do sublime, perceberíamos nossa insignificância diante da Natureza e as forças que a dominam.

Por fim, Botton faz uma reflexão da relação com a Arte, em como a posse da beleza – seja do que considerarmos belo em nossas viagens – pode trazer uma mudança de olhar sobre a Arte e sobre o lugar. O retorno, com essa posse, torna-se outra viagem, agora ao que é familiar.

Não pensem que contei o livro inteiro aqui, pois estou longe disso! As experiências de viagem do autor, a maneira como ele as conta e as conclusões a que chega valem a pena serem lidas. Botton traz uma reflexão bastante filosófica sobre viajar, mas ao mesmo tempo, faz isso de uma maneira simples e até mesmo poética, o que torna a leitura super agradável. Para quem gosta de viajar, é um livro duplamente recomendado, que ajuda a pensar sobre aquilo que está além das viagens e dos destinos, aquilo que está dentro de nós como indivíduos e como parte de uma sociedade.

 

 

A Arte de Viajar

Autor: Alain de Botton

Páginas: 256

Editora: Intrínseca

Ano: 2012

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