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O CORONEL QUE RAPTAVA INFÂNCIAS

Em seu primeiro livro, jornalista reconstitui com profundidade o chocante caso do coronel Pedro Chavarry Duarte, condenado por estupro de vulnerável.

 

Em setembro de 2016, o coronel reformado da Polícia Militar Pedro Chavarry Duarte foi flagrado por dois policiais militares dentro de um carro no estacionamento de um posto de gasolina, em Ramos, na Zona Norte do Rio, ao lado de uma criança de dois anos, nua, que aparentava estar grogue. Replicada em todos os portais de internet e nos telejornais do país, esta história intrigante provocou indignação no estudante de jornalismo Matheus de Moura. Ele passou a acompanhar atentamente o noticiário até que, em 2018, decidiu se mudar de Santa Catarina para o Rio de Janeiro e sair em busca de detalhes não descobertos, fontes não ouvidas e territórios não visitados.

Movido por um incansável faro jornalístico e inspirado em A sangue frio, clássico de Truman Capote que inaugurou o gênero chamado jornalismo literário, Matheus analisou minuciosamente os registros e reuniu mais de vinte e cinco horas de entrevistas para fazer um mergulho inédito no caso e na trajetória do personagem que ficou conhecido como o “coronel pedófilo”. O resultado do árduo processo de apuração deu origem a seu trabalho de fim de curso de jornalismo e foi o ponto de partida para o livro O coronel que raptava infâncias, que marca a estreia de Matheus como autor e chega às lojas, pela Intrínseca, em agosto de 2021. Sem obedecer a uma cronologia linear, a narrativa percorre o sombrio passado de Chavarry, desde as origens bascas da sua família, passando por sua experiência como coroinha, um desempenho escolar pífio, até a sua escalada profissional, marcada por ações que, em tese, eram pautadas por bandeiras de assistência social.

O foco da plataforma de atuação do coronel eram crianças – muito pequenas, na primeira infância −, em geral oriundas de famílias em condições de extrema pobreza. Munido de credenciais que o tornavam figura de reputação inquestionável – branco, rico, benquisto dentro da corporação militar −, Chavarry encontrava suas vítimas em comunidades carentes do Rio de Janeiro, lugares onde o poder público não tem interesse, ou recursos, para atuar. Mulheres com filhos pequenos, às vezes recém-nascidos, o viam como um milagre: ele oferecia emprego, assistência financeira e, acima de tudo, cuidava de suas crianças em uma suposta creche.

Jamais se descobriu, no entanto, o endereço dessa instituição. Quando Chavarry colocava as crianças em seus carros de luxo alugados, custeados com dinheiro público, as mães não sabiam para onde elas eram levadas ou o que acontecia durante as muitas horas de ausência. Até a noite em que uma atendente de lanchonete, moradora da comunidade Uga-Uga, se deparou com a insólita cena no estacionamento do posto de gasolina, em setembro de 2016, o que resultou na denúncia à polícia.

Para entender em profundidade os atos perpetrados por Pedro Chavarry Duarte e a extensão dos danos causados por sua conduta a inúmeras famílias inocentes, Matheus mergulha na geografia física e psicossocial do Rio de Janeiro com sensibilidade e coragem. O coronel que raptava infâncias oferece um raio-X indispensável do caso que chocou o país, reiterando a urgência de manter vivos na memória coletiva mesmo os momentos mais repugnantes de nossa história.

Luciana
Uma jovem que estuda, trabalha e respira literatura. E sempre que possível está aqui para dar dicas de livros via internet.

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