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Etnocentrismo: o que é e por que precisamos estar atentos?

 

Qual é o estilo musical correto? Quais são os idioma perfeitos? O que seria a boa música, boa arte, vestimenta correta? Que o tipo e/ou cor de cabelo perfeito? Se sua resposta é “depende” ou “essas perguntas não são pertinentes” então você já tem consciência de que determinadas práticas culturais e formas humanas de estar no mundo não podem ser hierarquizadas. O contrário disso chama-se etnocentrismo.

 

Afinal, o que é etnocentrismo?

 

O etnocentrismo é uma doutrina e prática que privilegia uma ou outra cultura, grupo social ou etnia sobre todas as demais. O etnocentrismo é fruto tanto de uma interpretação errada do evolucionismo biológico, quanto de interpretações religiosas rudimentares que consideravam alguns povos como “não humanos” ou “sem alma”.

Com o fim da idade média a Europa vivenciou um forte período de expansão territorial com as grandes navegações e com a exploração de um mundo até então desconhecido. As nações europeias avançaram e conquistaram territórios em todo o globo e deparavam-se com povos totalmente diferentes em termos culturais e linguísticos, porém, não menos humanos. Como justificar essa exploração, escravização e até genocídio desses povos conquistados? Como justificar os africanos escravizados, povos americanos desterrados, indianos e povos asiáticos subjugados?

Esse movimento de dominação estava sustentado por ideias evolucionistas sociais que faziam crer que os europeus eram mais evoluídos que outros povos visto suas tecnologias mais avançadas. Também, sustentado pela narrativa religiosa de que os europeus eram povos escolhidos para converter os outros povos, ou simplesmente eliminá-los visto sua condição de não humano. O frei Juan Ginés de Sepúlveda (1489-1573), por exemplo, defendia o “direito cristão” de conquistar mulçumanos e índios americanos, justificando o sistema de encomiendas, uma espécie de novos feudos com povos conquistados como servos.

 

Etnocentrismo ainda existe

Tanto no mundo intelectual quanto no religioso, foram surgindo avanços e reflexões sobre a igualdade entre humanos e a ideia de que práticas e tecnologias humanas não são superiores ou inferiores, mas diferentes e adaptadas aos interesses e condições de vida de cada povo, grupo social, comunidade e/ou sociedade.

Franz Boas, antropólogo culturalista, é um dos grandes nomes que vai mostrar que o paradigma evolucionista não se aplica ao mundo humano, marcado pela cultural e pelo desejo. Lévi-Strauss, posteriormente, apresenta o processo de transição do mundo da natureza para o mundo da cultura, o que inaugura uma nova natureza, a natureza do social, como bem esclarece Émile Durkheim.

Posteriormente, com o avanço da reflexão e das ciências humanas, percebe-se que ainda hoje existem etnocentrismos, por vezes velados, que influenciam a forma como percebemos o mundo. Nossa forma de pensar, nossa forma de crer é influenciada pelos códigos culturais ditos dominantes. Mesmo que muitas vezes não verbalizados, nossas mentes ainda tendem a observar determinadas práticas culturais, modos de vida, línguas, entre outros como superiores a outras. Ou de considerar nosso mundo e práticas como superiores à de outros povos.

Trata-se de um exercício humano de empatia e convivência com o diferente. Os povos e sociedades possuem níveis diferentes de progressos, de desenvolvimento social e humano, níveis de tecnologia e eficiência diferentes. No entanto, tais diferenças estão relacionadas aos jogos da vida social e econômica. Não existe justificativa racional para acreditar que tais diferenças tornem uns mais ou menos humanos que outros. Que determinadas formas de ser, crer e estar no mundo devem ser desprezadas ou até mesmo destruídas por serem diferentes.

 

Facismo e o etnocentrismo

O mundo das grandes navegações e o mundo moderno foi marcado por muita violência. O Imperialismo e o Nazismo-Fascismo são acontecimentos políticos e históricos que levaram a ideia de superioridade de um grupo ou nação ao extremo, causando um rastro de morte e violência em uma escala jamais vista na história humana. Hannah Arendt lembra que o germe do pensamento nazista está na negação do outro, numa tentativa de autoproteção, que faz com que povos se fechem e vejam outros como ameaça, como “povos supérfluos”.

A melhor alternativa para evitar que novas formas de etnocentrismos e dominações culturais aconteçam é estar aberto para novas experiências culturais e alimentar a consciência de que a diversidade e pluralidade cultural é positiva e se cultivada, traz bem-estar e vida digna.

 

Referências/Para saber mais:

ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

BOAS, Franz. Antropologia Cultural. 6. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

 

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Colaborador Beco das Palavras
Os textos publicados aqui são produzidos pelo colaborador que assina cada artigo, sob supervisão e revisão de Luciana Assunção.

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