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Corra! Um Filme De Jordan Peele

Salve, salve rapaziada! A dona da bagaça, a Srta. Luciana Assunção me deu a honra de escrever nesse espaço e espero que essas palavras mal escritas sejam do gosto de alguém.

Antes de adentrar na resenha propriamente dita, é necessário esclarecer alguns pontos. O 1º é que alguém pode se perguntar: Por que raios uma resenha de um filme de 2017? É simples. Não gosto de assistir filme, ler livro ou ouvir um disco em que haja muito “hype” em cima. Isso afeta meu senso crítico. O que leva ao 2º ponto. Vou assistir a um filme, ler um livro ou ouvir um disco quando der um “estalo”. Ou se minha filha insistir, como foi o caso de Corra! (USA/UK, dirigido por Jordan Peele). Dito isso, vamos à resenha.

Corra – Um filme de Terror?

Filmes de maneira geral, e de terror especificamente, seguem tendências. Ou modismos, se preferirem. Já teve a época dos “lobos solitários”, aqueles que agem sozinhos, tipo Jason, Mike Myers, e por que não, Pennywise. Época de “forças sobrenaturais” como “O Exorcista” e todas suas continuações, prequel e etc. Não podemos deixar de lembrar “A bruxa de Blair”, que com sua pegada semiamadora, também “criou tendências” (o orçamento do filme na época, para os padrões hollywoodianos, foi ridículo!).

Não sei se classificaria “Corra!” como terror. Talvez “terror psicológico” e quem já assistiu sabe o porquê. Mas seja como for e considerando a safra cada vez mais sofrível de filmes, onde cada vez mais o enredo é um fiapo com várias pontas soltas (quiçá buracos mesmo) e com doses cavalares de efeitos especiais e surround pra deixar qualquer um surdo, “Corra” tem seus méritos.

Em parte o filme funciona graças a seu protagonista Chris, interpretado pelo ator inglês Daniel Kaluuya. Logo de cara, o reconheci de um episódio de Black Mirror. Ele consegue transmitir, principalmente através do olhar, as sensações as quais o personagem passa. É possível sentir o incomodo de Chris no jantar com a família da namorada, o desespero na sessão de hipnose ou o seu deslocamento na festa promovida que ocorre na propriedade.

Quem ainda não assistiu, posso adiantar uma coisa: não espere uma narrativa convencional de filmes de terror, como por exemplo, a família que muda de cidade ou casa após uma tragédia ou aquele bando de jovens com hormônios em ebulição, que viajam, acampam or whatever.

A temática aqui é o racismo! Sim! E o filme já começa com o protagonista, negro, um tanto quanto preocupado em conhecer a família da namorada, que é branca. E se notarem, essa questão a cerca do racismo no filme é abordada como que por camadas. Ou em níveis diferentes. Há um personagem, no caso o melhor amigo do protagonista, que vem a ser o famoso “alívio cômico”. Talvez esse lado cômico seja proposital, para deixar o ar mais leve e a discussão mais palatável, embora mesmo esses momentos mais leves, digamos, não deixam de trazer algum aspecto a respeito da temática.  

Apesar do pano de fundo ser um tema ainda atual, ao mesmo tempo, o filme não é panfletário. Não esperem uma espécie de discurso explícito de inclusão ou de “empoderamento do negro”. Porém, se a intenção do diretor do filme era provocar uma discussão, enfiar o dedo na ferida ou algo que o valha, em mim o efeito funcionou. Tanto que, posteriormente, consegui fazer um link entre alguns aspectos que o filme aborda e a música “The story of OJ”, do Jay-Z. Se não conhecem, aproveito e também recomendo o vídeo da referida música.

De qualquer sorte, mesmo com alguns elementos característicos de filme de terror, duvido, mesmo para os que já assistiram que alguém conseguisse imaginar o desenrolar do filme. Nem vou entrar na seara de verossimilhança. Aliás, se tomarmos por base os filmes de terror tradicionais, tipo “Sexta Feira 13”, buscar coerência é algo complicado. Basta lembrar quantas vezes Jason Vorhees foi morto ou ressuscitou (como em “Sexta Feira 13 – VI). Não querendo ser repetitivo, mas já sendo, reconheço, acredito que mesmo no momento chave da película, aquele momento em que as coisas se encaixam ou passam a fazer sentido, é, para mim, uma abordagem mais profunda ainda, a respeito da temática do filme.

Não sou de incensar as produções cinematográficas atuais. Não por birra ou por querer ser do contra, mas simplesmente por não achar que estão em um nível das grandes obras da 7ª arte. Porém, como citei no início do texto, reconheço em “Corra!” um frescor de novidade. A abordagem foge do estilo tradicional de filmes de terror. O ator escolhido para ser o protagonista foi um tiro certeiro, o elenco de apoio não deixa a desejar e mais do que isso, provou que é possível trazer ideias novas para um gênero já batido e rebatido, fugindo de alguns clichês já tradicionais. Numa época que os estúdios investem em muitos filmes apenas visando o retorno financeiro, seja em remakes, reboots ou continuações “ad eternum”, é revigorante saber que ainda é possível fazer filmes com ideias novas, saindo do lugar comum.

 

Por Marcus de Castro

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Colaborador Beco das Palavras
Os textos publicados aqui são produzidos pelo colaborador que assina cada artigo, sob supervisão e revisão de Luciana Assunção.

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