Publicado em Literatura, Literatura Brasileira

Cartas de um amor à moda antiga

O Livro “Cartas de um amor à moda antiga” (Porto de Ideias Editora) é uma breve viagem no tempo através das cartas escritas por José Alves Mota a sua amada Edith no ano de 1936. Ele era um promotor público e viúvo aos 42 anos e ela uma jovem professora de 24 anos e solteira. Além das cartas, o livro traz algumas fotos e um pouco da história deles e da família que formaram contada pelos netos, os organizadores do livro.

Numa das primeiras cartas, José diz que não cogitava mais amar naquela fase de sua vida na qual se encontrava viúvo há poucos meses e com duas filhas frutos desse casamento interrompido pela morte. Mas ao ver a jovem professora, o amor inesperadamente se instalou em seu coração. Talvez pela diferença de idade, ou pelo fato de se esperar que o luto de José pela esposa durasse mais tempo, o namoro sofreu críticas por parte de alguns a quem José chamou de “ridículos pharizeus” numa das cartas.

Infelizmente não há cartas de Edith para José, por isso algumas reações dela só podem ser captadas de modo implícito na sequência das cartas. Aparentemente ela estava relutante no início, mas acabou correspondendo aos sentimentos e intenções de José que comparou seu amor por ela “a essas doenças que começam lentamente, por indisposições ligeiras e convergentes, até nos envolverem numa noite em acesso violentos de febre…”.

Ao todo são 21 documentos entre cartas, bilhetes e telegramas que Edith guardou durante anos. Somente pouco antes dela morrer a família tomou conhecimento do conteúdo desses escritos e mais tarde resolveu compartilhar através do livro.José e Edith se casaram em Janeiro de 1937 e em pouco tempo tiveram dois filhos. Ele morreu em 1974 e ela em 2005 deixando uma família numerosa.

O que se chama amor varia ao longo do tempo sem que este de fato mude. Para alguns o modo de amar de José e Edith é algo impensável para nossos dias. Para outros é um tipo de amor ideal, aquele que se deseja e não se encontra mais. Paralelamente a essas questões culturais, sociais e pessoais sobre o amor, a história e o legado deles são admiráveis.

As bonitas, elegantes e cultas cartas de José nos remetem a uma época na qual o amor era sinônimo de respeito, afeto e admiração pelo ser amado. Uma época mais recatada e elegante com outros valores e costumes que muitos hoje em dia não jugariam melhores. As opiniões sobre o amor e o modo de vivenciá-lo sempre vão gerar discussões e vão variar de acordo com a época. Para muitos é melhor e uma conquista que o amor hoje em dia seja muito mais erótico e egocêntrico do que afetivo e devotado. Para outros resta o saudosismo de uma época na qual o amor passava longe da banalização e da vulgaridade dos tempos atuais.

“Cartas de um amor à moda Antiga” testemunha sobre uma época e um jeito mais elegante e bonito de se amar. Jeito esse que não deve nos levar a exaltar demasiadamente o passado, mas que pode nos ajudar a não cairmos num ceticismo profundo em relação amor o que parece se cada vez mais comum na atualidade.

8 comentários em “Cartas de um amor à moda antiga

  1. Uau, isso mostra como um amor pode superar limites. Me remeteu ao assunto desse final de semana, sobre o Michel Temer ter casado com alguém tão novo. Lendo a resenha percebi que o amor não escolhe idade.

  2. O livro, ou melhor, as cartas de José à Edith, é um elogio à boa escrita e a esse sentimento tão difuso chamado amor. A apresentação dos dois professores, especialistas no gênero, enriquecem ainda mais a obra, que merece ser lida, deliciada e divulgada.

    Paulo de Lucena

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