Publicado em Literatura, Literatura Estrangeira

Retalhos

Retalhos foi lançado no Brasil pela editora Quadrinhos na Cia. em 2009. O título, traduzido de Blankets (Cobertores), refere-se à capa da edição brasileira, parte fundamental da história, como veremos.

Enquanto lia, me lembrei de uma aula de Literatura da faculdade. Todos os alunos ficaram confusos quando a professora categoricamente afirmou que o leitor não deve se identificar com personagens de livros, mas o mesmo deve apenas sentir-se estimulado, questionado, confrontado por eles.

Nunca concordei totalmente com essa afirmação e, é impossível ler a autobiografia em quadrinhos de Craig Thompson sem se identificar com ele ou com alguma situação vivida. Aliás, muitas vezes apreciamos livros e filmes exatamente porque neles encontramos personagens com quem nos identificamos e assim, temos a chance de fugir um pouco da realidade.

Retalhos conta alguns acontecimentos importantes da vida de Craig, desde sua infância, passando pela adolescência, até chegar à vida adulta.

Três temas centrais são abordados em seus desenhos: a relação com Phil, seu irmão mais novo; as dúvidas da adolescência e da sexualidade; e, ao meu ver, a mais forte na história, a influência da religião em sua vida.

Nosso autor dividiu sua cama com o irmão mais novo durante parte da infância dos dois e acredito que esta experiência teve seus dias bons e alguns que poderiam ser esquecidos. Me diverti muito com os quadrinhos que os mostrava brincando na cama, fingindo que eram marinheiros enfrentando os perigos do mar. Ao mesmo tempo, algumas imagens mostravam momentos entre Craig e Phil pelos quais eu acredito que eles gostariam que nunca tivessem acontecido. As tiras abaixo é uma dessas cenas de partir o coração. Sabe quando você fazia algo errado na sua casa, mas quem levava a culpa era seu irmão?

De qualquer forma, ver a inocência de uma criança por meio de quadrinhos foi inspirador. A narrativa de Thompson é simples, com poucas palavras e desenhos que te fazem entrar na história. O que mais me atraiu nas imagens foi a presença da neve, que era praticamente um personagem. A neve dava um ar de frieza e solidão nos desenhos e, também, beleza e soberania.

Raina, presente na capa do livro, foi o primeiro amor de Craig. Foi ela, aliás, que fez para ele uma colcha de retalhos. Presentes feitos a mão são os mais sinceros, não é? Raina foi essencial para o personagem na adolescência. Talvez como forma de crescimento pessoal e conhecimento sexual. Como não se identificar com um rapaz e suas dúvidas quanto ao amor, os problemas da escola, a dificuldade em saber o que ser no futuro?

A religião é o tema principal da história, na minha opinião. É também o ponto que mais me emocionou, pelo fato de eu ter vivido situações parecidas com as do personagem. Desde criança Craig é levado pelos pais para a igreja. Ele ia aos cultos, lia a bíblia, participava de acampamentos de inverno e, nesse tempo, foi percebendo atitudes hipócritas dos cristãos. A história nos mostrava, no entanto, que ele mantinha um relacionamento próximo com o próprio Deus. Nosso personagem teve diversos momentos de dúvidas quanto às questões religiosas e, no fim, vemos que sua opção foi se afastar delas.

Retalhos é uma obra belíssima e uma ótima idéia de presente para alguém querido. Impossível não se identificar, não apreciar.

Para terminar, leia abaixo o comentário pessoal do Thiago (@bolachadelimao), sobre o livro. Quando eu terminei de ler o que ele havia escrito, vi que nossas opiniões se relacionavam. Ah, depois dê uma passadinha no blog dele.

“Me identifiquei muito lendo Retalhos, de Craig Thompson. E explico: Além de, assim como o personagem, ter experimentado algumas situações aterrorizantes na minha infância e adolescência com bullying; eu me tornei, logo cedo, um cristão, e pelos mesmos motivos: Pura obsessão com tudo o que é transcendental. Até agora consigo captar, com minha própria cognição emocional, todo o drama e decepção que Craig sofrera em seu processo de maturidade, e que é tão minuciosamente descrito, em palavras e figuras, nas páginas impressas da Graphic Novel. E não sou o único. Todo mundo que tem pego esse livro em mãos, desde então, esboça essa mesma sensação de identificação, uma verdadeira sinergia com o personagem principal dessa trama auto-biográfica. Acho que isso se dá pela profundidade que Craig registrou nas páginas cada um de seus medos e taras, sem afetação alguma. A trama torna-se quase humana e real, mesmo que tenha sido desenhada com ambientações quase oníricas em arte preto-e-branco. É uma experiência sensorial do caramba, além de sensível e sincera.”

Autor:

Formada em Letras pela PUC-SP. Adora ler, assistir filmes e musicais, conhecer bandas novas, sair para bater papo. Tenta ver a beleza nas coisas mais insignificantes. Acredita no ensino. Ensina na You Move.

14 comentários em “Retalhos

  1. Muito boa sua resenha, Livia! E muito bom esse livro. Eu sempre gostei de quadrinhos, mas nunca consegui me acompanhar do modo como gostaria. Quando tive esse livro em mãos fiquei bastante curiosa por causa da história. Realmente, é bastante envolvente, talvez porque, como você disse, a gente se identifica nem que seja em algum aspecto. No meu caso, as dúvidas do Craig sobre cristianismo e religião muito se aproximam das minhas, portanto, ver as conclusões a que ele chegou foi bem interessante. O mais legal, ao meu ver, é falar de assuntos como esse na forma de quadrinhos. Acho que isso envolve muito mais quem lê, especialmente quem já gosta de quadrinhos.

    Enfim… Vale a pena ler.

    Parabéns pela resenha, gostei muito.

  2. sempre vi esse livro na livraria e ficava tentada a ler, mas quem disse que dava tempo?

    adorei a resenha, agora tenho um motivo para lê-lo e acho que tbm vou me identificar (e tbm discordo da posição da sua professora, apesar de ser o que deveria acontecer, é impossivel não nos identificarmos com os personagens), já que a fé sempre gera dúvidas e questionamentos na cabeça.

  3. fiquei interessado no livro pela parte relacionada a religião. eu já vi essa capa e abri ele várias vezes em livrarias e nunca peguei. talvez eu vá atrás agora.

    e quanto à identificação com o personagem, se devemos ou não nos identificar, é como dizer para você não se identificar com uma pessoa, não ser amigo dela, porque é inevitável a identificação, principalmente em histórias reais.

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