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O beijo e outras histórias

A partir de hoje, colocarei algumas resenhas e impressões de seis textos entre contos e novelas do Anton Pavlovitch Tchekhov ou só Tchekhov, como é mais conhecido. Estes pequenos textos estão reunidos no livro, O Beijo e outras histórias – Editora 34 – (272 páginas), tradução de Boris Schnaiderman. Coleção Leste Europeu.

capa tcheckov

Em cada uma, acrescentarei um pouco da vida do autor e tradutor.

Um dos méritos do livro e sei que é facilitador para o novo, o mediano e o avançado leitor é que as leituras dos textos são independentes. O leitor pode ir do primeiro conto ao último, sem precisar fazer ligações. O que acho necessário para o leitor compreender a literatura é recorrer à vida do criador, o autor, pois, sabemos que sempre há conexões da sua história e obra e com Tchekhov, não é diferente. Outra facilidade que a própria Editora 34 coloca são as notas dos tradutores e notas biográficas, por isto, acho uma atitude louvável. Particularmente, gosto da Editora 34. Não estou fazendo marketing (nem ganhei o livro da editora), mas, acho suas propostas em suas publicações interessantes. Podemos observar que a editora não se propõem a publicar qualquer coisa. Sabemos que temos vários nichos de leitores e também, da dificuldade de tornar-se leitor. Acredito que as editoras têm um grande papel quando acrescentam facilidades para a leitura.

Tchekhov nasceu em 1860 em Taganróg, sul da Rússia, em um período político marcado pelo assassinato do Czar Alexandre II e a Ascenção de Alexandre III ao trono. Foi uma época de acontecimentos revolucionários, já na sua fase adulta. Filho de um comerciante que vem a falir e que para reinventar – se, vai com toda a família para Moscou. Mesmo vivendo com a dificuldade, Tchekhov permanece em sua pequena cidade e para sobreviver, começa a ministrar aulas.

Boris Schnaiderman nasceu em Úman, na Ucrânia, em 1917. Em 1925, aos oito anos de idade, veio com os pais para o Brasil.

Capa do livro: Garçon Assis – óleo sobre tela – 1890 – 95. Paul Cézanne: Nascido em Aix-Provence. Pintor impressionista. Detalhe: Cézanne inicia seus estudos na pintura, entre 1856 e 1860. 1860, ano do nascimento de Tchekhov.

 

Começaremos com o conto “O Beijo”, é o primeiro do livro.

O Tchekhov, era um especialista em histórias curtas, captava e passava a mensagem da realidade em um pequeno enredo.

O Beijo – Editora 34 (tradução de Boris Schnaiderman), vem confirmar a habilidade de Tchekhov com o texto curto, mas, com vida.o beijo rodin

O Beijo – Auguste Rodin – 1889

  A história se passa em um ambiente de acampamento militar, na aldeia de Miestietchko.  O desenrolar e o ápice do conto começam a partir do convite do Tenente – General Von Rabbek que possuía terras na aldeia e convidava os oficiais a tomarem um chá em sua casa. Um gesto de cordialidade para com os iguais. Eram doze oficiais. Um momento oferecido para descontrair, conversar, jogar e dançar. Entre os oficiais, tinha o Tenente Lobitko e o Capitão Riabóvitch, este, que se sentia o mais invisível de todos, achava que não tinha tanto para ser admirado.

Ao chegarem à casa do General Rabbek, deparou-se com toda a sua família, entre senhoras e jovens moçoilas. Moças que para os oficiais era algo enriquecedor em momento de batalha e ambiente predominantemente masculino.

Após serem bem servidos de comida e bebida, conversaram bastante, havia interação entre a família Rabbek e os oficiais. Cada um foi se encontrando no local, ficando à vontade e estabelecendo território na dança ou no jogo. O socializar-se é algo fantástico, independe do ambiente.

Riabóvitch, aquele que se achava inferior, sem dotes para a conquista ou o jogo, quis voltar ao salão principal. No caminho de volta, perdido em uma casa ampla, cheia de compartimentos em meio a salas escuras, Riabóvitch, aquele que se achava inferior foi o escolhido para ser tomado por um afago de um “Beijo” e um abraço de uma jovem que, o ambiente não lhe proporcionava enxergar quem era e sim, aguçar os seus sentidos pelo cheiro e sentir os braços dessa mulher que, agora, tornava Riabóvitch especial. A sensação era diferente para Riabóvitch, logo, nunca se sentira amado e observado, digno de um “Beijo”.

Na hora da ceia, onde, todos agora se sentavam novamente, Riabóvitch, procurava encontrar quem era aquela mulher, através de um olhar aguçado queria encontrar aquela, uma só, ou a parte de todas as senhoritas em uma. Queria que fosse essa ou aquela. Ficou na dúvida.

É hora de voltar à realidade. A empreitada de adivinho não era fácil.

Agora, é a hora da partida, todos saciados e com as expectativas contrariadas com a recepção. Achavam que Rabbek queria posicionar-se com a sua patente e não era isto. Era o simples gesto do oferecer aos oficiais o contentamento em meio à batalha.

Tchekhov, nos leva a refletir nesta passagem:

“Os oficiais saíram para o jardim… o jardim lhes pareceu muito escuro e silencioso. Caminharam calados até o portão. Estavam meio embriagados, alegres, satisfeitos, mas, as trevas e o silêncio obrigaram – nos a ficar um instante pensativos. Cada um teve o mesmo pensamento que Riabóvitch: Chegará também para eles o dia em que, a exemplo de Rabbbek, terão uma casa espaçosa, família, um jardim, quando também eles terão a possibilidade de tratar as pessoas com carinho, ainda que insincero. Deixá – las fartas, embriagadas, contentes?”

Todos voltaram ao acantonamento, cada um retornava aos seus postos e suas devidas obrigações, a conversa era sobre suas vidas e suas atividades militares.

Riabóvitch, que foi tomado pelo inesperado, ficou inquieto nos dias que se seguiram. Voltou aos arredores daquela casa em que, o ambiente, tornou – o um ser humano melhor por que tocou pelo interior. Sentia – se apaixonado. Queria ser encontrado novamente. Mas, por vezes a procura, ela não é alentadora. Por vezes, pode ser um tormento. Riabóvitch, em sua insana procura por respostas, ficava em devaneios, a vida tornava – se um pesar.

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” (Vinicius de Moraes).

Porém, a vida também, provoca as mesmas situações, pode ser com outros personagens, mas, são oportunidades. Tudo depende da forma como olhamos.

Tchekhov, em um emaranhado singular, em um ambiente hostil, nos coloca uma situação singela. É possível o “AMOR” em meio à Guerra.

Riabóvitch agora aquieta – se, desiste da procura, voltando para o campo de batalha sendo tomado pela surpresa. O General Frontriábkin mandou chamar todos os oficiais. Um novo convite, uma nova história, novos sorrisos, danças, jogos e comida, na companhia de novas pessoas. A vida volta a sorrir para Riabóvitch, ele poderia viver outro arrebatamento, não quis. Colocou o destino submisso à sua decepção.

Será que Riabóvitch em Tchekhov nos deixa uma lição? Que apesar das batalhas, somos capazes de nos surpreender com o melhor e que em meio ao escuro e ao frio podemos proporcionar e receber carinho e atenção. Dentro de nós, podemos espelhar algo de bom que possa ser digno de um “olhar”, uma atitude que marca.

Podemos nos acorrentar ao destino do fracasso, ou, o destino pode ser a nossa reinvenção quando achamos que a situação pede um ponto final.

Façamos dos nossos “Beijos” os nossos momentos de construções.

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O Beijo – Gustav Klimt – 1907 – 1908

* (créditos da mensagem na tela: Página, Artes                 Depressão – facebook)

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Terror

TERROR POSTPrimeiramente, ao leitor do Beco das Palavras, peço desculpas, pois o livro pertence a uma série e, quando veio à sugestão de livros para a resenha e fazer a escolha, entrei no site da Betrand, não percebi que era uma série e escolhi TERROR. Mas, com o olhar e atenção de uma livreira, creio que não deixarei o leitor na mão. Firmando uma posição de responsabilidade com o nosso leitor, vou ler o primeiro da série, Madame Terror depois, no entanto, já irei situar o leitor, fazendo uma pequena apresentação da Madame Terror. Comprometo-me a fazer uma análise individual dos dois, em seguida, falarei dos dois comparativamente.

Quem me conhece sabe que gosto de falar do autor, acredito ser imprescindível saber um pouco sobre quem escreve, pois, essa relação ajuda a leitura desenvolver-se da melhor forma. Jan Guillou é um jornalista, escritor sueco e sócio de uma editora, a Piratfötlaget, com 69 anos, tornou-se conhecido, quando em 1973, com Peter Bratt, desvendou que a organização estatal de espionagem IB se dedicava a registar ilegalmente as opiniões políticas de cidadãos suecos, tendo sido então ele próprio condenado à pena de prisão por espionagem*.

A Série, Os Desafios de Hamilton – TERROR (Bertrand Brasil, 490 páginas) têm um pouco da vivência de Guillou no jornalismo, a espionagem. A série, ambientada e vivida pelos personagens, em países como EUA, França, Mundo Árabe (em especial Palestina), Rússia e Suécia, começa com Madame Terror (Bertrand Brasil, 504 páginas), um nome bem sugestivo para uma mulher com o nome Mouna al Husseini e com o pseudônimo de Madame Terror, espiã que serve a OLP – Organização para a Libertação da Palestina; o enfoque do primeiro livro da série é dado pela visão dos palestinos, curioso, já que nós, do Ocidente, estamos acostumados com a história do Oriente, contada por nossos olhares midiáticos.

 Terror começa com o olhar sobre os costumes da realeza saudita em terras americanas, como o mote é a espionagem, estão envolvidos FBI, CIA, NSA e o mundo jornalístico, no encalço de pessoas que em outrora, ocuparam posições de espionagem no passado e alguns que estavam na ativa, na luta do Bem contra o Mal, sabemos que é assim disseminada a bandeira, tanto do ponto de vista do Ocidente, quanto do Oriente, para combater o terror.

O fio da história desenrola-se com a volta de Carl Hamilton, vice-almirante sueco que vivia exilado na Rússia, aguardava julgamento para livrar-se da prisão perpétua, Hamilton, é peça chave na história, devido a sua experiência com espionagem e por conhecer bem o emaranhado político em cima de questões relacionadas à segurança nacional, mas, Hamilton não está só, em tempos de espera para o julgamento que decidirá a sua vida, retoma contato com um grande amigo Erik Ponti, jornalista renomado na Suécia e que, através dessa amizade, aumenta o seu círculo de amigos ao conhecer o casal Ewa Tanguy e Pierre Tanguy. Todos os personagens eram ou são ligados a linhagens que remetem a segurança, militares, espionagem.

É no ambiente tranquilo e despido de voltar ao passado em que, por mais que não queira repetir o que antes era obrigação, agora se torna dever. Os novos horizontes com as novas companhias são o chamado para mais uma missão. O casal Pierre Tangui e Ewa, ele francês, um escritor famoso, já fora um antigo coronel da Legião Estrangeira, ela, inteligente e bem sucedida chefe de polícia, amargam o sequestro da pequena Natalie, única filha de cinco anos do casal, o momento é onde há todo o envolvimento com tudo e com todos, pois, as marcas do passado, mesmo que cicatrizadas, fazem com que, seja uma questão de honra o sucesso no desfecho, é o grande nó que precisa ser desatado para que, no final, tudo volte ao normal e haja um final feliz.

Tudo é muito atual na ambientação do romance, o Presidente da França é Nicolas Sarkozy com Carla Bruni, o Presidente da Rússia é Vladimir Putin, dos EUA, George W Bush; há menções da polêmica que envolve a charge do jornal dinamarquês que satirizava Maomé, quem não lembra? O painel, é tudo que possa provocar o Oriente Médio, foi daí que veio o sequestro, quando, duas jornalistas vão entrevistar a Ewa Tanguy e omitem, distorcem e publicam fotos da mesma com a filha Nathalie, a renomada chefe fala sobre um julgamento de muçulmanos, daí, torna-se o alvo em nome da Jihad – luta pela fé, Guerra Santa.

Focado nessas descrições, o leitor já tem um panorama sobre o final. Colocando a minha visão, não gostei do livro, achei que o autor cai em determinados detalhes desnecessários e cita algumas coisas, onde, não termina, por exemplo: Quando ele cita os Hell Angels**, fiquei questionando o porquê de ter mencionado e não contextualizou.

Mas, vamos analisar o formato do livro: As letras são em tamanho padrão, são 12 capítulos, nos quais, dentro de cada capítulo, há uma subdivisão, às vezes, o autor está em um pensamento, parte para o outro, é preciso atenção. Trama, o romance tem, mas pode deixar o leitor confuso. Aconselho o livro só para leitores medianos e que gostem de romances históricos policiais, ou, aqueles que, já tem um hábito da leitura, para dar de presente ou incentivar à leitura é desaconselhável, pode ser desmotivador. Percebi o seguinte, o livro é roteiro pra filme, nas páginas, ele descreve:… “A altura da mesa, tipo 007 chegando a uma sala e vai conversar com Putin, sobre determinada autorização para determinada assunto”. RÁ – é hora da caçada. Compreendem?

O tamanho do livro são detalhes, detalhes que pretendem prender a atenção do leitor, mas eu não via a hora de acabar, ufa! O final é mamão com açúcar, todo mundo feliz. Nathalie é resgatada, todo mundo na França é recebido com honras militares com direito ao casal presidencial recepcionando e medalhas por mérito, tapete vermelho, entonação da Marselhesa (hino da França), Erik Ponti, viverá com uma bela aposentadoria, agora que está fora do Dagens Eko, um dos jornais mais importantes da Suécia; o casal Tanguy volta à normalidade, Pierre Tanguy, toca novos projetos para novos livros que se tornarão sucesso mundial; Carl Hamilton que teve a família desfeita, perdendo a filha e a mulher, nutria uma paixão contida por Madame Terror ou Mouna, admiração devido já conhecer o trabalho que ela fazia, ele, enxerga a sombra da possibilidade, enfim, de refazer a vida conjugal pedindo-a em casamento. O príncipe saudita, que em nome da justiça para quem o provoca, foi o mandante de todo o terror que cerca a história e ainda, mantinha algumas francesas como prisioneiras, é o lobinho capturado sendo obrigado a cobrir pena. Claro que, missão envolvendo segurando nacional é significado de? A Diplomacia pede passagem, por favor! E os países envolvidos, querem atenção midiática, ergue-se a luta pela PAZ? Será? Quem quer uma casquinha?

Óbvio a história? O que posso dizer? Ler qualquer coisa, é melhor do que não ler nada, então, defendo que mesmo que seja ruim, leiam. Afinal, só vivemos de experiências positivas? Não, o negativo existe, pois, temos a oportunidade do outro olhar, a segunda chance. O cotidiano pode ser sol, amarelo, rosa, mas, por vezes, a vida tem o lado nebuloso, cinza.

Viajar pela leitura! Eis o meu apelo!

  • Fonte: Wikipédia e site da Bertrand
  • Hell Angels: Moto Clube que surgiu nos EUA e está presente em vários países.
  • Nos encontramos com Madame Terror
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Clara dos Anjos

wpid-3501a29b-299c-47a8-b723-87094d3f160a.pngApesar de serem considerados cansativos e complicados para aqueles que rejeitam as suas leituras, em nome dos mais propagandísticos e que figuram na lista dos mais vendidos, os clássicos, deveriam  estar no topo da preferência dos leitores vorazes, são leituras carregadas de informação sobre espaço e época de construção da personalidade de um povo.
E vai uma dica, é possível e até mais prazeroso, intercalar um clássico com um mamão com açúcar, tende a ficar menos cansativo para ”os sem costumes”.
Afonso Henriques de Lima Barreto (13 de maio de 1881  1de novembro de 1922), foi escritor e jornalista, filho de escravos, nasceu em um período turbulento no Brasil, onde os movimentos marcantes foram a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, eventos que estiveram presentes na visão crítica e na veia  do escritor. Sua escrita carregada de ironia e por vezes, contraditória, denuncia os detalhes de uma sociedade que hoje, em alguns aspectos, não é tão diferente do que presenciamos atualmente. No entanto, sabemos que agora  há meios que proporcionam atitudes inovadoras.
Clara dos Anjos  (Penguin-Companhia, 304 páginas), romance que vem com o teor de crítica social e com o intuito de situar melhor o leitor, em um Rio de Janeiro com outras linguagens verbais, paisagísticas e influências europeias, traz apresentações do editor, da pesquisadora Beatriz Rezende, da crítica literária Lúcia Miguel Pereira, do historiador Pedro Galdino, da Antropóloga e editora Lilia Moritz Schwarcz e a reprodução do prefácio do sociólogo, Sérgio Buarque de Holanda, que escreveu em 1956, para a editora Brasiliense.
O Rio de Janeiro de outrora, com europeu ainda vindo ocupar o lugar, em especial ingleses, Lima Barreto, relata às marcas da presença estrangeira na arquitetura e em todos os âmbitos daquela que já foi a nossa capital, a submissão e o abismo que separavam às classes sociais, no meio fadado ao fracasso tentam livrar-se de estigmas para confortar o ego, não querendo enxergar as tragédias do local em que não se escolhe nascer, porém, obrigado a viver o que o meio proporciona; os desdobramentos na economia e na política, o surgimento e o incentivo da Caixa Econômica Federal e ao ato de poupar, a vida de quem já foi escravo, quem vive na jogatina, quem ocupa os bares e a vida marginal. É perceptível, a evidência das diferenças, elas, sao o mote para o desenrolar do romance, pois, era o tom que Lima utilizava para denunciar o que via e o que o próprio passava, em todo o livro, os personagens construídos, confundem -se com a biografia do autor, às vezes, em um tom de mágoa pelas dificuldades que o negro passava para inserir – se ou ter acesso ao mínimo possível, os detalhes para descrever ”a pessoa de cor”, outra marca forte encontrada no texto, merecem atencão; o alcoolismo, fator de várias internações e alucinações do Lima e o desejo de ser reconhecido como autor de sucesso, ou seja, as atitudes e os meandros do universo e da personalidade do Lima Barreto, você encontra espalhado em cada ambiente frequentado por ele e nas pessoas que passaram e fizeram parte da sua vida com morte precoce aos 41 anos de idade.
A própria Clara dos Anjos é a figura da brasileira, mulata, desejada, filha de pais pobres que, contudo, prezam por uma boa educação no sentido de protegê – la do destino perverso social, já iria carregar o fardo do preconceito racial, os pais, tentam criá – la fazendo – a acreditar que seria uma mulher diferente, com um futuro melhor, crescida e boa moça, estaria pronta para um bom casamento e é aí que a Clara cai em desgraça, Lima Barreto, mostra que  a desilusão, como parte do mundo suburbano carioca leva à outra face, é no fundo do poço que você percebe que não é ninguém, aqui, arrasta – se as questões morais familiares; vai o questionamento, quem é que penetra em uma  família de negros para o tormento? O branco dominador, a relação do Senhor e da escrava perpetua – se, ela, sempre obrigada a servir, principalmente, os impulsos sexuais, a mulher como objeto. Este branco, retratado na figura do malandro Cassi, vinha de uma família de suburbanos, mas, como Lima Barreto gosta de enfatizar, no subúrbio, existem às hierarquias e há os predadores, Cassi, era suburbano com posses e parentesco de nomes imponentes, morava em uma casa, considerada uma das melhores na região, tendo duas irmãs bem estudadas e criadas, filho de um pai trabalhador com caráter e que aos poucos foi alcançando a prosperidade, tinha uma mãe protetora que abençoava suas atitudes desvairadas e assim, motivo maior do seu retardo e inutilidade; Cassi, conquistava as mulheres inocentes  como cantador de modinhas, quando conseguia o que queria já era motivo para partir pra outra, a desonra feminina estava feita, era a  vergonha das famílias agora partidas com o nome na lama e moças, jogadas a própria sorte. Clara, foi a sua última presa antes de Cassi, descaradamente  fugir para São Paulo e  mais uma vez, responsabilidade para quê? Afinal, era a denotação da figura do malandro que o Lima estava a nos apresentar.  Eis o modo servil e cruel de perceber que você é mais um, a realidade chegou para Clara, era só mais uma mulata, de origem humilde e suburbana.
O livro, posso assim dizer, mostra o trágico moral e social através da inocência de quem só quer um dia, melhorar, ser reconhecido, fazer diferente no meio em que se quer negar. 
Leitor, em meio às teorias raciais da época e o grito em nosso mundo contemporâneo por cotas e espaços que ainda não tinham sido alcançados, proponho uma boa leitura carregada da seguinte reflexão: O que mudou na nossa visão? E no seu quadrado?
O clássico do mês, reforça que a boa Literatura está compromissada com os valores reais.

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Os Escritos Secretos

os escritos secretos - sebastian barryQuando uma literatura envolve sentimentos de cunho existencial, relações de perda e questões morais, haverá uma relação de um envolvimento maior por parte do leitor, afinal, o tempo em que se passa o romance, pode não ser o mesmo para o leitor, mas, as questões da vida cotidiana como, fazer escolhas e aprender a conviver com as suas próprias tragédias, são inerentes a vida de quem um dia teve que amargar ao passar por determinadas situações. Apresento-os, Os Escritos SecretosSebastian Barry (Bertrand Brasil – 350 páginas).

O enredo desenrola-se pelos interiores da Irlanda de U2, dos escritores Oscar Wilde, Samuel Beckett e do filósofo, Edmund Burke, grande crítico da Revolução Francesa; para os desavisados, a República da Irlanda, que outrora já foi pertencente ao Reino Unido e palco da ”A grande fome” que aconteceu de 1845 – 1849, hoje é reconhecida por ter um dos maiores Índices de Desenvolvimento Humano do mundo. Para os leitores mais antenados, o livro pode ser um norte a alimentar a sua curiosidade, no decorrer da leitura, poderão encontrar referências sobre grandes acontecimentos, dentre eles, a luta pela independência da Irlanda, nomes da mitologia irlandesa e celta, personagens políticos.

É a partir da memória dos personagens que passado e presente se confundem no ambiente de um hospital psiquiátrico decadente e se encontram nos cadernos de anotações de Roseanne, uma das pacientes mais antigas e  lá esquecida, o Dr Grene, o psiquiatra incumbido de avaliar ao circunstâncias que levaram determinados pacientes para o hospital e se alguns podem ser reinseridos à comunidade, já que o local  vai ser desativado, no entanto, há algo maior que liga médico e paciente, não é o simples esmero profissional, é algo que une ação ao sentimento, e a frase proferida por Vinícius de Moraes, cai como uma luva sobre o drama vivido em Escritos Secretos, assim dizia o poeta e diplomata, ”A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida”.

Permeado por uma forte curiosidade e um sentimento interior maior, o Dr Grene inclina-se mais pela história de Roseanne prestes a completar 100 anos, intrigado, debruça-se sobre os escritos que há sobre a sua paciente e insatisfeito com respostas incompletas segue adiante em busca de sentido, porém, como em todo caminhar encontramos as pedras no caminho e que para o Dr Grene, são pessoas que não estão mais vivas, mas, que fizeram parte ou passaram pela vida de Roseanne; casas de apoio, creches e asilos em busca de arquivo, farão parte do itinerário do Dr Grene em favor de quem foi Roseanne um dia, contudo, como em toda busca na vida sempre encontramos surpresas, destrinchando o passado  da paciente, o Dr Grene, depara-se com a sua própria história.

As questões religiosas estão presentes com a força do Padre Gaunt e a separação e definição do que representa cada indivíduo no duelo entre protestantes e católicos.

O que posso pontuar de negativo como leitora, é a forma como o romance apresenta-se na forma, subdividido em capítulos, intercalados entre as anotações do Dr Grene e Roseanne, mas, nesse jogo, fica um vazio, é como faltasse alguns conectivos, podendo desmotivar o leitor.

Mas, quem é esse escritor tão interessado pelo trágico e por detalhes tão duros e sujos? Sebastian Barry, é irlandês, escreveu peças de teatro, poesia, mas, onde tornou-se mais conhecido foi nos romances, devido as premiações, é filho da atriz irlandesa Joan O’Hara e vive atualmente no Condado de Wiclow na Irlanda.

Um desafio para quem vai ler é, entender que deverá ler com calma e aproveitar para refletir sobre viver à margem e aprender a constituir-se na ausência e na presença.

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Às Armas, Cidadãos

13449_ggÉ amigos, em uma época em que o debate e o amadurecimento toma conta sobre a convergência da produção de conteúdo, em um momento em que, as redes sociais são utilizadas como o palco de produção de máscaras e ao mesmo tempo consideradas espaço público para às discussões e revoluções e a era do Campus Party, às vezes esquecemo-nos de parar e pensar como se davam e propagavam – se os debates em anos remotos, pois, não existia e nem precisava de um botão para apertar e seguir com a transformação.

Segundo matéria publicada no Correio Braziliense do dia 28/01/2013, “Facebook Renascentista”, pesquisa feita por instituições britânicas constatam que, nas academias italianas, dos séculos 16 e 17, os pensadores costumavam criar grupos, compartilhavam trabalhos e também, usavam apelidos.

Hoje, com os recursos tecnológicos ao nosso favor, fazendo – nos encarar à distância de outra forma, ficamos surpresos ao ler e sentindo o calor das emoções de outrora, mas, através do livro: “Às Armas Cidadãos”! – Panfletos Manuscritos da Independência do Brasil – 1820 – 1823 (Companhia das Letras /UFMG) começamos a entender a dimensão e a dinâmica desse compartilhamento, organizado por José Murilo de Carvalho, historiador e cientista político brasileiro – MG; Lúcia Maria Bastos Pereira Neves, historiadora brasileira, professora de História Moderna na UERJ; Marcello Basile, professor de História da UFRJ.

Pois é, cuidado com o que escrevem, sabe aquele papel em que você passa com uma fofoca?  Um dia pode ir para algum acervo, futuramente, você poderá ser reconhecido como o traidor da sua “tribo”, está aí a Ciência da Informação para cuidar e catalogar os registros em que, nem o tempo apaga, pode até rasurar um pouco, mas, vai que alguém resolva reuni – los e editar em um livro com determinadas estórias?

No entanto, o livro não vem com picuinhas, mas, desejo de independência confirmada em 32 panfletos retirados do Arquivo Histórico do Itamaraty, digitalizados e transcritos com algumas explicações e às notas de rodapé para que o leitor fique bem inserido, no final, a cronologia ajuda a entender às colocações nos panfletos, pode chegar a ser cansativo, o leitor atento vai querer através de uma lupa entender o arcaísmo da língua portuguesa para à época, isso mesmo, a língua e a oralidade evoluem juntamente com a escrita; é o registro do burburinho político – social registrado na Bahia, Rio de Janeiro e Portugal, mostrando as personalidades residentes em cada local, geralmente comerciantes, bacharéis e profissionais liberais, nascidos no Brasil e pessoas que vinham de Portugal para assumir um cargo administrativo, alguns acabaram retornando para aquele país europeu; descreviam até a fraqueza de alguns em determinadas situações quando clamavam por posições mais fortes. São momentos decisivos para à nossa independência.

O livro atende o engajado com o seu redescobrimento e o estudante de humanas que busca respostas e conexões para pesquisa, logo, os organizadores deixam alguns questionamentos para inquietações, é um livro com pouco conteúdo, porém, rico.

Em meio a petições públicas que circulam na internet para que Renan Calheiros não volte à Presidência do Senado, nas páginas 28 e a 214, principalmente, votos e convites à: Assina, Assina, Assina… quadras convidativas para à mudança e um não à corrupção. Investigar o passado é entender o presente.

Contudo, o bom mesmo é saber que em muitas coisas somos capazes de evoluir, só temos que trabalhar para cortar na raiz e trabalhar as deficiências do caráter, ao que me consta, produto da essência humana e marginalizada em um país de clientelismos perdurados até hoje.

E eles escreviam… denunciavam…corrompiam–se…evoluíam…morriam…retornavam…

 

 

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Garranchos – Textos inéditos de Graciliano Ramos

8501087653_XVFoi PROVOCATIVA a minha escolha, foi PROVOCATIVA… pautada em duas questões, uma vez que, valorizamos em demasia o que não é nosso e, em tempo de constatação, cada vez mais sabemos pouco sobre nós, nossos escritores, nossas identidades. A outra motivação foi mergulhar na minha região. Sim, somos regiões divididas, precisamos buscar o conhecimento da parte e depois nos reconhecer como um todo, uma rica diversidade. No entanto, confesso ter em minhas mãos uma responsabilidade muito grande, escrever algo sobre um livro de Graciliano Ramos, Garranchos – Textos inéditos de Graciliano Ramos (ed Record). Pergunto-me: quem sou eu para poder alinhar vírgulas e pensamentos sobre uma pessoa de vida grandiosa? Visto-me da couraça da modéstia, logo, uma característica evidente na postura do sertanejo alagoano.

O livro vem com uma introdução pelas mãos do próprio organizador Thiago Mio Salla, estudioso da obra do autor. Aqui é necessário um pouco de paciência, pois vem com uma escrita mais acadêmica, mas a intenção é deixar o leitor ambientado dentro da obra que é dividida em fases passadas pelo autor, podemos até perceber no decorrer da leitura o amadurecimento da escrita, conhecendo os desdobramentos e as interfaces de um Graciliano em Palmeira dos Índios, no Rio de Janeiro, os momentos no Cárcere, o Político, o Presidente da ABDE (Associação Brasileira dos Escritores), o contista para crianças.

Para quem nunca mergulhou em um livro do Graciliano ou em uma obra regionalista não precisa temer, o leitor é redirecionado a todo o momento às notas explicativas, onde, é demonstrada a efervescência dos acontecimentos de ordem de vida pessoal, profissional e ideológica que o motivam a escrever, os ambientes, também, são descritos, na parte final do livro encontramos os detalhes da vida e obra, cronologia.

Cito alguns Garranchos que me marcaram, V, VI, IX, X, XI, XIII e XIV. Dentre os assuntos abordados, é interessante como algumas questões tratadas por Graciliano encontram-se totalmente atuais, de 1ª ordem, assuntos que são os dilemas do nosso cotidiano e é por isso que o conjunto da obra torna- se rico, dentre elas, Luz Elétrica, o Álcool, gastos nas prefeituras municipais, “O Testa de Ferro”, Liberdade de Pensamento, o elogio às mulheres e a questão do voto feminino, os elogios paralelos aos literatas nordestinos como Jorge Amado, a crítica que Graciliano faz ao brasileiro, no qual, afirma,  conhecermos pouco o nosso mundo, “nos esforçamos para saber o que se passa na Europa”; eu mesma deixo uma indagação, alinhando o coro, continuamos do mesmo jeito?

Graciliano Ramos (retratado por Portinari)
Graciliano Ramos (retratado por Portinari)

Um dos maiores clamores é relacionado à educação, caminhamos, mas as reclamações continuam. Por isso nosso subdesenvolvimento, a educação ao que me parece nunca figurou na grande agenda, contudo, vejamos uma particularidade, quando o Graciliano exerceu o cargo de Diretor de Instrução Pública, hoje, equivalente ao Secretário de Educação, observamos as estatísticas no aumento de matrículas no período de 1932 a 1934.

Ler Garranchos, é conhecer o surgimento das personalidades brasileiras, o delineamento do meio cultural, é ficar a par dos encontros, correspondências entre os escritores e artistas em nome de algo, as inquietações, é conhecer os estrangeiros que estiveram no Brasil e curiosos, ainda, pelo interior do Nordeste como o austríaco e sociólogo, Ludwig Schennhagen. Ler Garranchos,  é como sentir um sertanejo ao seu lado contando todas aquelas histórias.  Ler Garranchos, é andar pela história do Brasil, é perceber a interação dos que torciam pela solidez do nosso conhecimento entre as regiões. Ler Garranchos, é conhecermos um pouco do movimento Comunista em oposição ao medo da penetração e dimensão do Fascismo, o Graciliano como parte desse movimento. Ler Garranchos, é conhecer a dimensão do conhecimento e o envolvimento além-fronteiras como os discursos proferidos a favor dos escritores na América Latina, presos e torturados por governos populistas.

Portanto, Garranchos, é um conteúdo relevante que vai além do autor, tempo e região.

Lembrando Orhan Pamuk, escritor Turco e Nobel de literatura em 2006, o que é o romance? “É a filosofia do seu tempo”

Leitores brasileiros, convoco a todos para que, inquietem-se, precisamos alimentar nossa autoestima, temos o suficiente em, beleza, riqueza natural e cultural, possuímos os melhores atributos para andarmos de cabeça erguida, é importante lembrar que, todos nós  somos responsáveis e atores do processo.

Garranchos – Textos inéditos de Graciliano Ramos – 378 páginas

Organizador: Thiago Mio Salla

Editora – Record