Uma página em branco

Toda história tem um ponto de partida. Por vezes, é um tanto quanto difícil escolher por onde começar. A sensação é de privilegiar um ponto de vista e, claro, suprimir outros. É uma questão de escolha, tanto do ponto de construção da narrativa, quanto da ótica do autor. E não seriam estes a mesma coisa?

Após alguns anos de distância entre o conhecimento da obra, sua concepção, seu lançamento e o alçar para o universo cult, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças continua a despertar no espectador a mesma relação de escolha. O filme trata, especificamente, do ponto de vista de Joel (Jim Carrey) e como seu sofrimento é determinante para os caminhos que percorreu e as consequências de sua escolha.

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Clementine (Kate Winslet) é uma jovem descrita como impulsiva, cujas perspectivas beiram o presente e esbarram num futuro sempre próximo. Joel acredita ser o ponto equilibrado do casal, pacato e simpático, não tem páginas de fúria e dispersão a preencher. Certo dia, Clementine decide que não quer mais pertencer a este casal e procura uma empresa, chamada Lacuna, que pretende realizar uma desfragmentação de memórias. A partir daí, Joel deixará de ser um registro e, Clementine, poderá seguir seus passos impulsivos sem dores e sem remorsos.

Ao descobrir, Joel entra em pânico. Um movimento previsível, retratado por uma trajetória de desafetos e dores. Joel toma a mesma atitude, descartar todos os registros da existência de Clementine, mas no meio de tantas memórias, o arrependimento o envolve e ele tenta ao máximo se apegar a reconstrução de suas lembranças.

Em nenhum momento conhecemos Clementine por suas ações ou memórias. É Joel que nos conta como era a vida devastada por uma pessoa que não tem uma trajetória firme e adulta. A impulsividade da mulher nos agride, assim como a Joel, ao ponto de desejarmos que Clementine deixe de existir. Até o despertar da paixão, revivida em memória, que nos alcança como uma onda gélida de uma tarde invernal.

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Mas… A escolha ainda está lá, mesmo no percorrer do desapego. Aquilo que guardamos em nossos registros de vida é uma construção incessante de uma sombra do que um dia foi. Ao contar uma história, escolhemos o que é mais interessante de se relatar. As opções primam pelo belo e confortável. Mas memória é fragmento e recontá-la é construir uma nova referência.

O desejo final de Joel pode ter sido realizado. Ou não. Não é importante entender a relação futura, pois já é explicito como ela deverá acontecer. O respeito e a cumplicidade poderão ser reconquistadas, assim como novas memórias podem preencher aquela página em branco que teimamos em negar a cada despertar.

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