O sonho de todos

Um olhar sobre o espetáculo Universo Casuo

Fotos: arquivo fanpage Universo Casuo (Divulgação, Marcelo Veiga e Otávio Stadler)

É como sonhar acordado. Todos os elementos estão por lá: bailarinas saltavam delicadamente do trapézio, a mágica do bambolê que percorre o corpo, em solo o acrobata que se contorce e se move com a força das mãos, a voz que suave preenche a alma, a dupla que se entrelaça quase como se estivesse sob o efeito das águas e o palhaço. Sim, teve palhaço! Aquele que brinca sem tripudiar e que envolve com histórias emocionantes sobre quem é e como o faz.

Universo Casuo é tudo aquilo que falam mesmo. Mágico, envolvente e delicado. O espetáculo, idealizado por Marcos Casuo há quase nove anos na estrada é circo montado no teatro. E não é porque não há uma lona que este não pode ser o lugar dele. Um sonho que começou com uma ideia lá nos tempos de Cirque du Soleil e que ganhou corpo na decisão de sair da companhia canadense e perseguir seu próprio espaço.

A apresentação ganha a plateia pelos detalhes. Tudo começa com uma interação, onde o palhaço sai do palco e vai de encontro com o nós. Lá, pesca quem seriam seus companheiros de cena. E essa brincadeira percorre toda a noite, com pessoas comuns sendo alçadas aos holofotes numa intensa troca. “O circo está no coração do povo. [Realizar a Universo Casuo] É muito gratificante, porque tenho uma equipe boa, que visa o acontecimento. E isto é circo”, assinala Casuo ao falar de como toda a produção é feita em conjunto e por partes. E a equipe abraçou a causa.

São artistas, produtores, diretores cênicos, músicos, assessores, carregadores, iluminação, sonoplastia e roteiro, tudo bem fatiado, ou melhor, cada um no seu quadrado. O sucesso da Universo Casuo, como frisa Marcos, é o resultado do trabalho em grupo, com equipe qualificada e focada para a execução desta grande obra. De Curitiba, o espetáculo que já esteve em oito países e diversas regiões do Brasil, segue turnê pelo Sul, certamente encantando plateias e proporcionando momentos únicos para cada um que se dispor a sonhar junto com o elenco e sua história de alegria.

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Foto: instagram/@queabuso

 

O Espetáculo

A Universo Casuo é um universo paralelo, um não-lugar de encantamentos onde Jean Francua, o Clown percebe que o Planeta Terra, que outrora fora azul e belo, está desbotado e sem cor. Com essa premissa, o Clown rompe a barreira entre os mundos para resgatar a alegria e o sonho no coração desta terra.

A noite começa com o Clown indo ao encontro da plateia. Dela, tira alguém para dançar. E nesta troca, Coração é introduzida ao palco com sua voz suave junto da White Clown Band que dá ritmo a toda a magia e, por fim, Angel, a nossa criança interior que vem ao auxílio de Francua para buscar novas cores para este sonho. Como uma fada, a voz de Coração nos leva para este mundo mágico. Pronto, o laço está feito.

Por súbito, o trapézio triplo desce do teto para a apresentação de três acrobatas. São as Auroras, que com ajuda dos palhaços são elevadas e se movimentam ritmicamente como a uma canção. Os corpos se unem a dois, três metros da altura do público que entorpecidos respondem com suspiros de espanto ao ato. Mas a força desprendida no trapézio é só o começo. Em solo, El Goru surge equilibrando sob suas mãos as palavras força e leveza no ritmo da música.

Maestralmente, cede espaço para que, novamente pelo ar, cordas, ou seriam tecidos elásticos, sejam fixados a nosso olhar. É a vez de Éolo que salta e se eleva às alturas. Ao chão, Arnuchavan se apresenta com sua mandala, um grande aro metálico que circula todo o palco com o artista dentro e fora dele. Francua quer mais. Procura na plateia um parceiro para entender como a velocidade se desenvolve. Em um jogo, hipnotiza o convidado e o deixa ao chão para que Bike Shark venha. Sob a insígnia do tubarão, o artista percorre toda a plateia até o palco com sua bike trial. Com agilidade, se equilibra sob uma roda e percorre o corpo do convidado, provocando tensão em todos.

Da lira acrobática, Luna e Lunia se entrelaçam no ar. Como a lua, o círculo pendurado ao céu, nos atrai em uma sinergia com a banda só interrompida pela apresentação perfeccionista de Evron e seu malabarismo auxiliado por sua irmã, a Phoênix. Para o ar, são lançados uma, duas, três, quatro, cinco objetos, sejam bolinhas, claves ou aros.

Mas todo o sonho tem seu momento de pausas. E é assim, brincalhão e com ingenuidade que Pipa adentra o espaço. O Palhaço entra no palco como uma grande criança a querer brincar com os amiguinhos. E nisso, escolhe duas pessoas e lhes dá pseudônimos: o “pai” que busca a bola a ser lançada em todas as direções e o “corintiano” que emprestou a namorada mais cedo para que Francua pudesse dançar, além de Angel que silenciosamente se posiciona na plateia, brincando com todos sem tirar o brilho e a atenção do palco. A brincadeira é o seguinte, Pipa lança sua bola gigante para corintiano que deve jogar para o pai que, por sua vez, deve lançar para Angel. Claro que nada disso dá certo, mas quem se diverte mesmo somos nós.

A música muda. O ambiente todo é preenchido de um azul celeste. Quem se apresenta agora é Earth. Do tecido acrobático, a artista nos toca com sua dança melancólica e renovação de energia. E nem tudo está perdido. O Planeta Terra respira. E no mesmo balanço do tecido ao ar, uma fita interrompe a canção para que Vênus triunfe com o bambolê rítmico. São oito ao todo que circundam o corpo de forma simultânea até chegar um conjunto de mais de vinte bambolês que formam uma grande mola, propulsora de vida.

O equilíbrio é restabelecido pela sintonia do amor de Tayrone e Zeldia. Seus movimentos são leves, realizados como se estivem emergidos no vazio do espaço, pausados, como uma dança envolvente e cósmica. É o amor que se quer alcançar e o consegue. E para celebrar essa magia, Francua retorna e, pela última vez, escolhe mais uma pessoa para brincar junto.

A brincadeira é o símbolo do casamento de Universo Casuo com a plateia. E como é gostoso se ver representado em cena, seja homem, mulher ou criança. Ali, uma comunhão entre nós e a arte celebra o Universo que o palhaço criou para si, pensando no mundo. O recado está dado. O sonho agora é de todos.

 

*Texto publicado originalmente em Respeitável Trupe.

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