Esse Cabelo

Oi, pessoas!

Finalmente volto para falar do livro Esse Cabelo, que foi o escolhido para o mês de junho na lista do meu desafio literário: 12 livros escritos por mulheres negras para 2018. Na publicação passada, contei para vocês que a escolha desse livro teve um motivo até um pouco pessoal, me interessava ler uma história que falasse um pouco sobre questões que são importantes para mim, como a relação com o cabelo, essa transição de anos de química e tentativas de estar dentro de um padrão de beleza, para assumir os cabelos naturais.

Fui atrás do livro por causa da sinopse e imaginava certas questões que poderiam surgir. Por alguma razão que não sei explicar, esperava uma espécie de autobiografia da autora sobre esse tema, mas o que encontrei foi algo um pouco diferente. Gostei, por um lado, mas, por outro, me deixou um pouco perdida (?). Ainda não sei se esse é o adjetivo adequado, mas é o melhor que encontro no momento.

Acredito que o que me deixou um pouco confusa foi não conseguir identificar se o livro trata da história da autora, ou se trata de uma inspiração em sua própria vida. Sei que no fim das contas isso não importa muito, porque o que importa é o conteúdo ali presente. Mas falando da questão prática mesmo, do processo de leitura, penso que faz diferença. Porque o livro não é simplesmente uma história com personagens, começo, meio e fim, o texto é estruturado de maneira bem diferente e em alguns momentos você está ali, no enredo da história, em outros está numa digressão às vezes filosófica, antropológica e até sobre a própria produção literária, forma de escrita, etc. Enfim, disse que seria sincera quando houvesse algo que eu não gostasse em minhas leituras e isso é algo que realmente não me agradou, pois me deixou um pouco confusa em alguns momentos. Mas também não é nada que interferisse tanto a ponto de que eu quisesse desistir do livro.

Porém, por outro lado, achei muito interessante a maneira como a escritora estrutura essa obra. Vi em uma entrevista a Djaimilia Pereira de Almeida dizendo que quis fazer o livro em um formato de álbum de fotografias, onde as memórias são extremamente importantes e onde algumas cenas são meio que imortalizadas. Então, de fato, ao ler a história você parece estar virando as páginas de um álbum de fotos. Talvez por isso não exista uma preocupação em evitar tantas digressões, ou ter uma sequência mais certinha, digamos assim. Quando pegamos uma foto trazemos à mente não só o momento da foto, mas sentimentos, outras lembranças daquela época ou contexto. Esse livro é assim e, apesar de certa confusão que ele pode trazer a algumas pessoas (porque certamente nem todos os leitores se sintirão como eu me senti), é extremamente interessante essa construção e muito bonita também.

Bem, o livro conta a história da Mila, que, como falei, não sei dizer se é a própria Dijaimilia ou se é uma personagem inventada. Em outra entrevista me lembro de ter lido a autora dizendo que o livro não é uma autobiografia e se ela própria afirma isso, quem somos nós para questionar? Mas comparando o livro com suas falas em entrevistas é possível perceber muito em comum, talvez tudo se misture. Mila nasceu em Angola, mas se mudou para Portugal quando ainda era criança. Sua família por parte de pai é portuguesa, por parte de mãe, angolana. Ela, que é a narradora do livro, conta como a questão com seu cabelo apareceu em diferentes fases de sua vida.

Todas essas memórias do “álbum de fotografia” que comentamos antes aparecem: suas idas aos salões de cabeleireiro, as tranças, as mulheres que trabalhavam nesses salões, sua família (costumes, valores), a busca por uma identidade, o racismo… O cabelo está sempre no meio de todos esses questionamentos, discussões, encontros. É bem interessante porque traz ao leitor um fato muito importante que é: falar de cabelo não é falar só de estética. A narradora diz logo no início do livro:

A verdade é que a história do meu cabelo crespo cruza a história de pelo menos dois países e, panoramicamente, a história indirecta da relação entre vários continentes: uma geopolítica.

Sei que para algumas pessoas isso parece óbvio. Especialmente para quem que, assim como Djaimilia, assim como eu e tantas outras mulheres e meninas (e homens e meninos também), usar o cabelo natural parecia ser um grande problema, por ser considerado feio, bagunçado, sujo (nos casos mais racistas). Para nós é óbvio que um cabelo não é só um cabelo. Tem a ver com identidade, ancestralidade, resistência, tem a ver com padrões, do que se acredita que seja uma aparência aceitável (e quanto mais perto do branco, mais aceitável socialmente, não é?). Mas, acreditem, muitas pessoas, talvez justamente por estarem dentro de um padrão aceitável, sequer pensam sobre esse assunto. Então um livro como esse é realmente importante. Acho que é importante também para quem se identifica e, assim como a autora, tem vivido ou viveu todo esse processo de se conhecer, se aceitar, se libertar de certas prisões.

Enfim, espero que meus comentários tenham animado vocês a procurarem Esse Cabelo para ler. Acho que podem gostar. Eu li uma versão portuguesa, que é essa AQUI, no formato digital. Não tenho certeza se existe uma edição brasileira, mas recomendo que procurem e, se houver, talvez seja um pouco mais interessante. Mais uma vez, não altera em nada o conteúdo do livro, mas acho que a dinâmica da leitura pode ser mais fluida. Eu, pelo menos, tenho às vezes certa dificuldade com o português de Portugal. Nada contra Portugal, gente, por favor, mas é óbvio que nossa maneira de falar e escrever é diferente no Brasil e isso faz diferença quando estamos lendo um livro.

Para ver a lista completa do meu desafio literário desse ano, clique AQUI.

Um abraço e até a próxima!

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2 comentários sobre “Esse Cabelo

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