Minha experiência lendo livros escritos por mulheres

Em 2017 comecei um desafio de leitura muito especial e pessoal: ler apenas livros escritos por mulheres. Sempre gostei muito de ler, felizmente tive em minha vida pessoas que me incentivaram a isso desde criança. Mas apenas depois de muitos anos foi que me dei conta da grande defasagem que possuía como leitora. Por causa de uma simples brincadeira na qual era preciso citar os autores que mais me influenciaram, vi que de 15 apenas três eram mulheres. Não porque as elas tinham menos importância na minha formação como leitora, mas porque os livros escritos por mulheres que eu havia lido eram pouquíssimos, se comparado aos escritos por homens. Claro que em minha lista havia mais homens, era praticamente tudo o que eu tinha lido até então!

Talvez há alguns anos eu não teria me dado conta dessa defasagem. Certamente o olhar crítico sobre o mundo e sobre mim mesma, que venho adquirindo com o passar do tempo, me levou à decisão de ler mais livros escritos por mulheres. Assim como minha aproximação cada vez maior dos estudos feministas. Não se trata apenas de preencher um espaço vazio, percebi a necessidade de conhecer novas histórias, outras perspectivas e, sim, valorizar a produção literária que tem sido até hoje subestimada.

Comecei com uma lista específica de escritoras e livros que já tinha vontade de ler. Nesse intervalo entre um livro e outro coloquei leituras adicionais, também de livros escritos por mulheres. Em 2018 resolvi especificar ainda mais minha lista e ler livros escritos por mulheres negras. Como disse Conceição Evaristo no prefácio de Ponciá Vicêncio:

“Se para algumas mulheres o ato de escrever está imbuído de um sentido político, enquanto afirmação de autoria de mulheres diante da grande presença de escritores homens liderando numericamente o campo das publicações literárias, para outras, esse sentido é redobrado. O ato político de escrever vem acrescido do ato político de publicar, uma vez que, para algumas, a oportunidade de publicação, o reconhecimento de suas escritas, e os entraves a ser vencidos, não se localizam apenas na condição de a autora ser inédita ou desconhecida. Não só a condição de gênero vai interferir nas oportunidades de publicação e na invisibilidade da autoria dessas mulheres, mas também a condição étnica e social.” (Editora Pallas, 2018)

Como eu disse, não se trata só de ocupar um espaço vazio na minha formação como leitora. Trata-se também ouvir o que essas mulheres têm a dizer, aprender com elas. Falando de escritoras negras, essas têm sido ainda mais subestimadas e silenciadas, por isso esse recorte para minhas leituras de 2018.

Tem sido uma experiência incrível e quero compartilhar o que até agora mais tem me tocado, inspirado, ensinado.

Protagonismo feminino. Algo muito interessante sobre minhas leituras até agora é que todas as personagens principais desses livros são mulheres. Pode parecer meio óbvio, mas não é. Se você pega livros escritos por homens, inclusive os clássicos, vai encontrar muitos protagonistas homens e mulheres. Mas todas as escritoras que li até agora se dedicaram a criar personagens femininas, a maioria narradoras do livro, ou seja, donas de suas próprias histórias. Isso é muito significativo! Muito já foi falado por e para homens e por isso é tão importante ter história com personagens mulheres.

Características mais realistas. Justamente por serem personagens femininas criadas por mulheres, elas são muito mais… digamos, possíveis. É o que podemos chamar de verossimilhança. Leio as histórias dessas mulheres e me identifico muito com os sentimentos, pensamentos e ações ali expostos. Em As boas mulheres da China (que li no ano passado), por exemplo, não se trata de um homem imaginando como se sentiram as chinesas ao serem violadas ou silenciadas. Este é um exemplo ainda mais forte, porque não é uma ficção, é uma jornalista que ouviu inúmeras mulheres e em muitos momentos pôde se colocar no lugar delas, justamente por ser também uma mulher naquele contexto. Ou quando lemos Hora Zero, da Ágatha Christie (outro livro lido no ano passado) e vemos ela falando de feminicídio, não se trata de um homem imaginando como seria isso e sim uma mulher que, como todas nós, poderia estar exposta a esse crime.

Vivências plurais. Ler todos esses livros escritos por mulheres tem me permitido conhecer vivências diversas, algumas muito diferentes das minhas. Ainda que seja possível essa identificação, que comentei antes, também me coloca em contato com coisas que eu nunca havia pensado. Por exemplo, os livros da Elena Ferrante falam muito sobre maternidade. Eu não sou mãe e, por isso, não faço a menor ideia dos sentimentos envolvidos nisso. Sempre tive contato com a visão romantizada maternidade, que nos é imposta a todo momento de diferentes formas. Vem essa autora e joga abaixo todas essas ideias pré-concebidas e isso é algo sensacional! Em fevereiro li Precisamos de novos nomes, da NoViolet Bulawayo, que fala de uma menina que migrou do Zimbábue para os Estados Unidos (vou comentar sobre esse livro em breve). É uma realidade muito distante da minha, assim como foi ler sobre as mulheres chinesas no ano passado. Mas conhecer outras vivências por meio desses livros me ensina muito sobre a tão aclamada sororidade, por exemplo. Sobre empatia, sobre caminhar junto, e isso é lindo.

 

Ler livros escritos por mulheres definitivamente tem me feito crescer. É por isso que faço questão de compartilhar essas leituras aqui no blog, porque espero que vocês, homens e mulheres, que cheguem aqui também se inspirem. Homens, sim, porque livros escritos por mulheres não são só para mulheres (assim como livros escritos por homens não são só para homens, não é mesmo?). Inclusive, acredito que é essencial que os homens se aproximem mais dessas produções literárias, para que deixem de idealizar mulheres e ouçam o que elas têm a dizer sobre si mesmas, sobre o mundo, a política, o amor, a filosofia, o sexo, a amizade…

Quando lemos livros escritos por mulheres também nos posicionamos politicamente dizendo que essas vozes são importantes. Dessa forma, não apenas valorizamos algumas autoras específicas, mas as mulheres em geral. Consumir essa literatura ainda tem outra consequência que é a circulação desses livros. As editoras publicam e traduzem mais mulheres, porque existe a demanda e, assim, vamos nos inserindo nos espaços dos quais temos sido excluídas por tanto tempo.

Até quando seguirei com esse desafio/meta de ler livros escritos por mulheres? Não sei. Minha lista de próximas leituras é infinita e, claro, nela consta muitos escritores também. Escritores que já li e que amo, ou que quero ler pela primeira vez porque me parecem geniais. Em algum momento vou voltar a eles, mas foram muitos e muitos anos lendo praticamente só livros escritos por homens. Sinto que ainda é o momento de deixá-los um pouco de lado para ver e entender o mundo com o olhar de outras mulheres, com meu próprio olhar não direcionado por um homem.

2 comentários sobre “Minha experiência lendo livros escritos por mulheres

  1. Aproveite que sairá o livro da Maya Angelou, Mamãe e Eu e Mamãe, e inclua na sua lista de leitura. Não sei se você gosta de biografia, mas caso não conheça nada dela, acho interessante. Foi a única obra que li dela, mas em inglês. Gostei bastante da escrita dela, além de ela ser uma personalidade de grande destaque como mulher e como mulher negra. Espero que venham outras traduções dela pra cá.

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  2. Obrigada pela dica! Eu conheço muito pouco da Maya Angelou, sei mais ou menos a história dela, mas nunca li nada, justamente por falta de tradução. Vou procurar essa sua indicação e ler, com certeza. =)

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