O eterno marido, de Fiódor Dostoiévski

Há um bom tempo eu não lia nada de Dostoiévski. Pra ser sincera, nem lembro qual o último livro do autor que eu li, mas acredito que tenha sido O crocodilo. Encontrei O eterno marido em uma promoção na Amazon para Kindle. Em abril, o livro estava de graça no site, mas aumentou drasticamente para 0,20 centavos. Isso mesmo que você leu.

A trama deste livro é narrada em 3ª pessoa, e tem como personagem principal Veltchaninov, morador de Petersbugo. Veltchaninov é um homem de cerca de 40 anos, solteiro, sem filhos. Pertenceu por muito tempo à alta sociedade russa, principalmente quando jovem, por ter personalidade agradável e descontraída.

Sobre o personagem em questão, o narrador nos diz: “Os seus grandes olhos, uma dúzia de anos antes, tinham qualquer coisa de aliciante. Eram uns olhos tão claros, tão alegres, de uma tão feliz despreocupação que, sem nada fazerem para isso, logo atraíam todos os que os viam.” 

O rapaz era muito bem  visto pelas mulheres, fossem elas solteiras ou comprometidas. A falta de moralidade o fez viver bem, aquela vida cheia de excessos. No tempo narrado, Veltchaninov estava mais velho, já sem o brilho nos olhos descrito acima. No começo da leitura, percebemos que o personagem começava a se arrepender da forma como viveu quando jovem. Neste primeiro capítulo, a leitura é um pouco arrestada, pois se dedica a apresentar o personagem e a maneira como este pensa, estilo muito usado pelo autor.

O segundo capítulo apresenta um segundo personagem, crucial para a leitura: Pavlovitch. Pavlovitch é visto por Veltchaninov na rua, por diversas vezes. O protagonista, sem reconhecer o colega, fica angustiado, tentando lembrar quem é esta pessoa, que anda com uma fita crepe no chapéu, representando um momento de luto. Após um encontro, de certa forma, assustador, o protagonista se recorda de Pavlovitch, que nada mais é do que o esposo de Natália, sua amante (favorita) por um ano. Os dois não se encontravam há nove anos, por isso a dificuldade de o reconhecer.

O enredo é organizado com momentos de tensão e suspense, quando percebemos que o outro deseja matar Veltchaninov, após descobrir dos amantes de Natália, recentemente falecida. Não fica claro se Pavlovitch sabe do romance entre sua esposa e o personagem principal, e este desconhecimento deixa a leitura quase angustiante. Será que ele sabe, e finge que não sabe? Será que ele não sabe, mas desconfia? Esses questionamentos passam pela cabeça de Veltchaninov o tempo todo, e na nossa também, como espectadores.

No título, “eterno marido” diz respeito ao homem que é traído pela esposa. Neste romance, Pavlovitch pode ser considerado um eterno marido, pois sempre se dedica a fazer de tudo pela pessoa amada, sem muito senso crítico nisso.

O eterno marido, de Fiódor Dostoiévski, é minha recomendação de hoje. Pode ser um começo interessante para quem vai ler o autor pela primeira vez, por se tratar de uma obra menos densa, mas inteligente. Na minha opinião, Dostoiévski é especialista em descrever seus personagens, e a forma como pensam. Seus romances nem sempre têm um clímax ou uma reviravolta dramática, porém examinam o ser ficcional de forma muito proficiente. Vale a pena conhecer seu estilo literário.

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