Elegia do irmão

João Anzanello Carrascoza é autor contemporâneo, porém ainda pouco conhecido. Nascido no interior de São Paulo, na cidade de Cravinhos, o escritor passou sua infância se encantando com novelas e causos dos mais velhos. Mora na capital atualmente, é doutor em Ciências da Comunicação, e professor da disciplina Redação Publicitária, na Universidade de São Paulo.

Apesar da atuação na área publicitária, Carrascoza se dedica a publicar textos literários desde 1991, com o lançamento da obra As flores do lado de baixo (Editora Melhoramentos). Obras infantis e juvenis, e livros de contos foram sendo publicados pelo autor desde então, até o lançamento de seu primeiro romance, em 2013: Aos 7 e aos 40, da Cosac Naify. O escritor ganhou diversos prêmios de literatura, e foi finalista do Jabuti (3º lugar, com a obra O volume do silêncio e 2º lugar, com Caderno de um ausente).

Em março deste ano, os fãs do autor são agraciados com seu quinto romance: Elegia do irmão, do selo Alfaguara. As ilustrações da capa e miolo foram feitas por Elisa Von Randow.

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Elegia do irmão, 2019

 

Uma elegia é um tipo de poema que tem como assunto a tristeza e a nostalgia (Fonte: Brasil Escola). Sabendo disso, o leitor já prevê que está diante de uma leitura poética, marcada pelo desalento e pela saudade.

O narrador-protagonista da obra se dedicará a escrever suas lembranças em dois momentos: com a irmã Mara, e, após a sua morte. É um narrador que não se nomeia e, que pouco se sabe a respeito dele, a não ser sua intensa cumplicidade com a irmã, a qual o leitor acaba conhecendo mais.

A narração é iniciada após as personagens descobrirem uma doença grave em Mara, que daria pouco tempo de vida à ela. O “atentado contra a nossa felicidade” (p.14), como diz o narrador, o levou a registrar os últimos momentos que passaria com a irmã.

Nesses registros, o leitor é levado a rememorar situações do passado entre os irmãos, como viagens com amigos e com a família e, brincadeiras comuns entre eles, situações de alegria ou tristeza que ficaram marcadas na memória. Ao se deparar com a morte antecipada de Mara, o narrador se vê envolto por lembranças afetivas e, ao mesmo tempo, vai prevendo como sua vida será no futuro, sem a presença da irmã ao seu lado: Mara não assistirá mais novela com ele; Mara não enxugará as louças que ele lava; ele não sentirá mais o cheiro de incenso que a irmã sempre compra.

A segunda parte da obra, as narrações feitas após o falecimento da personagem, é precedida por uma poema, e iniciada com uma ilustração.

Nesta segunda parte da obra, as lembranças retornam ao narrador, em tentativas de evocar a presença da irmã: “Sem a minha irmã, tenho de carregá-la, sozinho, nas marcas do rosto – essas marcas, que nem as palavras nem os olhos conseguem reparar” (p. 131).

O leitor, acompanhando a tristeza de seu narrador, vai percebendo aos poucos que o processo de escritura do personagem é o processo de cura após o luto. O autor não escancara esse processo, mas o faz de forma delicada e sentimental.

As obras de Carrascoza trazem como tema a ausência, o silêncio e a memória, por meio de situações do cotidiano, como vê-se claramente em Elegia do irmão. Os próprios títulos de suas obras revelam sensibilidade em sua escrita poética: Hotel solidão, Catálogo de perdas, Caderno de um ausente, entre outras.

Os prêmios ganhados e a constância na qualidade literária de Carrascoza indicam que os fãs do autor ainda ouvirão muito sobre ele, no cenário contemporâneo.

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