Publicado em Literatura, Literatura Estrangeira

Um Ano de Milagres

Geraldine Brooks é uma jornalista australiana que há alguns anos resolveu se enveredar pelo campo literário. Como jornalista ela tem utilizado o que melhor aprendeu da profissão – fatos verídicos e muita pesquisa para descobrir detalhes – e aquilo que toda literatura tem para entreter com sua fantasia.

Com isso seu livro de estréia O Senhor March (Ediouro) que relata a vida de um personagem do clássico Mulherzinhas de Louisa May Alcott) Geraldine utilizou uma personagem já conhecido se baseando nas cartas escritas pelo pai de Alcott e conquistou o prêmio Pulitzer de livro do ano. Já o segundo livro, As Memórias do Livro (Ediouro), a autora emocionou multidões ao nos apresentar a hagadá de Sarajevo, um livro de orações judaico centenário que sobreviveu a guerras religiosas onde muitos desejavam vê-lo destruído na fogueira, se tornando um Best-seller em pouco tempo.

Em 2009 Geraldine Brooks volta às livrarias com mais um livro cativante. Um Ano de Milagres (Ed. Nova Fronteira) relata a história de uma aldeia inglesa no século 17 que teve grande parte de sua população dizimada pela peste bubônica. No livro, Brooks relata a luta das pessoas da aldeia para lutarem contra esse mal, que até então não existia cura e da coragem daquele povo, que decidiu fazer uma quarentena e assim evitar que a peste se espalhasse.

A história é contada pela empregada do pastor local, Anna. Uma jovem de 18 anos viúva e mãe de duas crianças. Após a morte do marido, a jovem Anna passa a alugar um cômodo da casa para um jovem alfaiate recém chegado à aldeia. Sem perceberem, o jovem acaba sendo a primeira vítima da peste, fazendo com que a jovem perca logo em seguida os filhos e a peste.

Com a doença espalhando pela cidade, o pastor, Michael Mompellion e um antigo clérigo faz um apelo a todos os moradores: que os aldeões sadios permaneçam na cidade ao invés de fugirem, evitando assim que a doença se espalhe pelas aldeias próximas. Naquela época a figura religiosa era como um prefeito para pequenas aldeias e sua influência era grande. Para surpresa de muitos na época, todos os cidadãos aceitaram a proposta e ficaram na aldeia, correndo o risco de morrer pela doença, mas com a convicção que estariam salvando muitas outras.

Com um acordo feito com um grande proprietário de terras da aldeia vizinha, consegue garantir alimentos e produtos para a aldeia durante esse período tenebroso que viverá desde que permaneçam isolados. Comida e mercadorias eram deixadas em um local isolado e as moedas usadas para pagamentos eram colocadas em um recipiente com vinagre, para evitar contaminação.

A igreja de Eyam, local onde muitos foram enterrados pela peste

O decorrer da história é triste. Mortes diárias e sofrimento constante tomam conta da cidade. Em meio à dor, Anna e a esposa do pastor tentam de todas as formas aliviar a dor dos doentes e por meio dos cuidados e de ervas, enquanto o pastor Mompellion ora e visita incansavelmente por todos da aldeia e lidar com os problemas decorrentes.

A luta para se manterem vivos e sãos diante de tanta dor também é descrita no livro. O desespero das pessoas chegou ao ponto de se auto-flagelarem e a ganância de alguns que se aproveitam desse momento não ficaram de fora da história.

Ficção X Realidade

Para escrever o livro, a autora continua utilizando fatos reais misturados com ficção. Assim como em As Memórias do Livro, alguns personagens existem, outras foram criados para criar um fio literário que guiasse os fatos. Em Um Ano de Milagres, o fio condutor é Anna, empregada do pastor, que consegue mostrar tanto a situação que dá inicio em sua própria casa quanto na igreja e seus vizinhos.

A epidemia na cidade de Eyam, Inglaterra, realmente começou com uma infestação de pulgas de ratos. Acredita-se que chegou à cidade junto com um carregamento de tecidos vindo de Londres para o alfaiate, a primeira vítima real de Eyam e que logo se espalhou pela cidade pelas roupas feitas por ele. Foram também os clérigos que propuseram a quarentena, que durou mais de um ano.

Mais uma vez Geraldine Brooks encanta e emociona o leitor. Assim como em As Memórias do Livro, queremos saber mais informações sobre o assunto, e descobrirmos pessoas de carne e osso audaciosos e sem medo de lutar pelo que acreditam.

Não posso deixar de comentar que o texto produzido pela autora está cada vez melhor. Parece que a cada livro Brooks vem melhorado sua escrita e a usado de maneira que prende o leitor. Não é uma leitura rebuscada, mas percebe-se que ela pensou bem nas palavras usadas e conseguiu um texto mais poético que nos outros dois livros que publicou. Quem ler com certeza vai ter uma ótima leitura.

Autor:

Uma jovem que estuda, trabalha e respira literatura. E sempre que possível está aqui para dar dicas de livros via internet.

4 comentários em “Um Ano de Milagres

  1. Lendo seu post, me lembrei de Decamerão de Boccaccio
    (meu pai me deu os dois volumes, que até hoje não terminei de ler). Tudo por causa da peste…

    Mas esse livro parece ser realmente muito bom! Gosto de dramas!

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